Wednesday, August 7, 2013

Do tempo e do abdicar...

Acredito muito que cada um de nós tenha limbo emocional. E chamo de limbo por ser aquele ponto que as coisas ficam escuras, perdidas e literalmente infernais sobre os próprios sentimentos que possuímos. Racionalmente temos a clara dificuldade de sair da espiral da dúvida e ainda acabamos, geralmente, trocando os pés pelas mãos. Nisso, várias situações que facilmente seriam resolvidas por uma fácil e digestível conclusão, se tornam novelas emocionais que mesmo, às vezes, durando algumas horas, pesam e doem como se durassem, literalmente, uma eternidade. Quanto a este limbo, acredito que cada um vá ter o seu e que pessoalmente devemos buscar formas de encarar isso.

Eu, por exemplo, tenho 2 limbos emocionais de percepção clara para mim. Um deles é quando encontro alguma mulher que considero linda (sim, tenho uma questão com beleza, me julguem), afetivamente e intelectualmente compatível. Primeiro, por achar raras as pessoas que aparecem assim em minha vida. Segundo, porque eu sou bastante pragmático ao me envolver afetivamente. Sei que sou extremamente sincero, especialmente com meus sentimentos, e por isso revelo de forma intensa e necessária aquilo que sinto, julgo isso como inocência, mas mesmo quando tento não ser tão inocente me sinto sendo falso e acredito que se aquela me leva a isso, melhor distanciar. Afinal, se não posso ser eu mesmo com aquela que ali se apresenta para mim, melhor não ter nada com aquela pessoa quem sabe, talvez, numa última instancia uma certa amizade. Até porque, convenhamos, depois de tantos anos me questionando tornou extremamente fácil ser cortante, mas extremamente difícil não ser aceito pelo que sou, ou de não viver algo na mesma forma emocional do que sinto.

O outro processo é o claro sentimento de rejeição que construí sobre mim mesmo. Talvez meu terapeuta pudesse falar melhor sobre isso, mas vivi uma vida aonde a seleção não era de fato minha, por algum motivo sempre me permiti ser escolhido (dentro de alguns cenários da vida) e aquelas escolhas por mim feitas se tornaram voláteis, não que não fossem importantes, mas que talvez o peso da escolha me desse mais responsabilidade sobre o processo de ter sido selecionado e esses cenários de fato são bem conhecidos por mim. Onde, claramente, se juntar o 1 com o 2, teremos um processo aonde essa união se cria de forma bastante drástica.

Você pode até se questionar, "por que alguém fala sobre isso tão abertamente?". Porque acredito que seja mais fácil você perceber a estrutura de si quando joga de forma aberta. Acredito que se alguém chegasse para mim e falasse que gostaria da minha amizade por ter tendências suicidas e que ao meu lado se sente confortável, eu aceitaria melhor aquela estrutura sobre todo o processo do que vivo, ao contrário de alguém que se mostra muito maroto e me deixa perceber de forma ativa defeitos com os quais não consigo conviver. Pode não parecer tão transparente, mas para mim é mais fácil aceitar o outro e respeitar quando este sabe de defeitos que carrega de forma bizarra, do que pessoas que vivem uma bolha da beleza, da economia comportamental e da própria dificuldade de aceitação. Por ser uma pessoa extremamente empática, acredito muito que quanto mais eu sinto a vida, mais sou capaz de sentir o outro. Afinal, quanto mais situações passo, mais fácil digerir ou compreender é aquilo que se vive. Por isso, o meu primeiro limbo emocional é tão complicado, porque poucas pessoas entendem ou vivem ou compreendem isso. Quanto ao segundo, que é muito mais palpável as pessoas serem rejeitadas, seja da forma que forem até porque ninguém ensina a lidar com isso de uma forma madura. Nossos primeiros traços de rejeição, seja pelo que forem, começam na infância e com isso a rejeição em si nos leva a esse ambiente tão conhecido.

Então, qual a grande situação disso tudo?

O grande processo aqui trazido é e sempre será do tempo. O tempo, esse mestre tão revelador e a tanto esquecido. Se você pensar com carinho, temos tempo para tudo, menos tempo para refletir sem estar em demanda com algo ou alguém para podermos apaziguar os nossos sentimentos e nos reconstruirmos dentro de um pensamento que está se tornando cíclico devido ao nosso próprio sentimento infantil sobre algo. Por vezes, meu tempo foi um múltiplo de sentar e conversar em várias situações com uma mesma pessoa que considerava tão empática quanto eu e que minimamente me falasse "eu faria isso" ou "você está fazendo isso, talvez seja melhor fazer de outra forma". Claro, que se ficamos muito tempo refletindo num vazio, fazemos desse vazio uma sala de tortura. Por isso, pessoas que estão de férias e em constante situação de não fazer nada sofrem. Sofrem por não darem um tempo para o próprio ciclo de pensamentos que é continuamente construído. E é aqui, para mim, que têm sido apresentados vários insights. Tomar uma decisão, mesmo que dolorida, cabe mais do que encarar uma realidade completamente composta e colocada sobre o meu limbo emocional. A nós, saber que o mundo tem seus movimentos de propósito, cabe a paciência, mas para o nosso ciclo de pensamentos infinito, não há tempo para se torturar. Então, paciência aqui não resolveria muito a questão.

Então, procurar encher a cabeça poderia ser a solução?

Não. Acho que a melhor solução é encarar o ponto da dor com o abdicar. Lembrar que não há situação que seja única e exclusiva na vida e que se for e você a perder, é porque aquilo não faz parte de você, não precisamos de nada que nos adoeça, seja psicologicamente ou seja fisicamente, e talvez realmente seja melhor perder, isso ajuda a lembrarmos que somos humanos, que não precisamos nos robotizar para sempre acertar, até porque na vida erramos muito mais que acertamos e vários desses erros se tornam os acertos que vemos como necessário para uma continuidade de um longo processo e é dentro dessas perdas, falhas e situações que encontramos, talvez, o movimento para tornarmos únicas e exclusivas algumas coisas...

Tuesday, August 6, 2013

Entre estilhaços e projetos...

Há dias eu tenho pensado em algo que me falaram. O curioso é que mesmo que eventualmente eu consiga me deslocar mentalmente para várias outras situações, quando o calor do momento se apaga, eu retorno ao pensamento sem qualquer outra forma de desvio. Chega a ser meio ridículo o quanto consigo ser obsessivo com algumas coisas e, para piorar a citação, ela é muito válida. A frase foi: "Você é o tolerante mais intolerante que conheço".

Por mais que inicialmente parecesse besteira e que a situação se mostrasse simples, ela veio de encontro a um grande momento de questionamento de algumas coisas para mim, sobre mim e o pior, é que me pareceu ser uma das frases mais sinceras que eu ouvi sobre alguma das minhas dificuldades.

Dentro de toda essa situação, percebi algumas coisas de comportamentos pessoais e de pessoas próximas que seus ápices se apresentam em paradoxos de personalidade que trazemos. Chega a ser engraçado, para não dizer trágico, o quão quebrados todos estamos e quão vivemos numa inteireza não existente. Não conseguimos assumir que possuímos sim uma quantidade de medos infantis e que vivemos sob o reflexo de todos, mas nos colocamos a um posicionamento certo, concreto e absoluto, na maioria das vezes, para falar de incertezas. 

Vivemos em busca de questões e desafios, de metas e de aventuras, mas, por vezes, tememos questionar ou abdicar delas, pela energia gasta, pelo orgulho do que foi criado ou por medo de não tentar ir ao máximo, como se toda energia que tivéssemos não pudesse ser desperdiçada.Entretanto, caímos nisso com um risco de várias coisas e que bom que estas existem. Porque elas fazem nós perdermos no nosso próprio processo e porque não dizer no nosso próprio jogo. Pensemos que quando nos determinamos a fazer algo existe apenas a direção e uma energia inicial a movimentar-se com "aquilo". Nisso, sempre travamos conceitos e batalhas contra os outros ou contra nós mesmos em busca de conseguir e conquistar aquilo que gerou essa movimentação inicial. Por vezes, vamos ter a recompensa de fato almejada, mas por outros momentos, talvez maiores que ter o que desejamos, teremos uma situação aonde "perdemos". Perda esta no nosso tabuleiro, nas nossas regras criadas, no nosso espaço escolhido, com a nossa melhor arma e por aí vamos... Esta se dá, em parte, por não unirmos um bom entendimento do projeto ao que planejamos de fato. Perdemos porque desejamos de um jeito estático, robótico, sólido e rochoso que faz parte do nosso desejo enquanto farelo e nisso ganhamos uma possibilidade que pode ir de encontro a uma boa análise clara e nada clássica, de onde observamos um padrão de investimento que temos, que vivemos e sentimos em nossa condição mais evidente enquanto humanos, é a da derrota. Não estou falando que somos derrotados ou sendo derrotista, mas quando estamos no chão, após uma derrota, fica claro ver que perdemos e ver que somos humanos. Basta assumirmos isso, somos humanos, podemos errar, podemos investir errado, mas posso ser um humano mais aceito da minha condição, ou um humano que está sempre num conflito disso, que faz muito ao sacrificar-se por seus próprios erros, por enxergar com tanta clareza toda essa dor e falha, tentar aprimorar na necessidade emergente disso e tornar toda dificuldade um monstro.

Aceitar o processo de que estamos numa grande guerra entre sermos nós, ou sermos um robô, que almejamos perfeição em várias das nossas escolhas, torna menos dolorida a questão de uma possibilidade de erro, e mais fácil o abdicar. Assim, fica mais fácil enxergar os estilhaços e viver de forma a se reconstruir do que de forma a viver como se fosse um inteiro que procura sempre uma forma nova, para poder tentar se reconstruir. É difícil acessar que por muito do que construímos a nós, vivemos numa infinidade de possibilidades de um mesmo quebra-cabeça e que não tem referências de montagem.Temos referência de quebra, porque ainda absorvemos e trazemos muito dos erros e acertos dos nossos pais. Mesmo que detestemos ou ignoremos isso. Aprender a enxergar a quebra de cada um auxilia a abaixar a cabeça e compreender que a nossa demanda por perfeição, de nós e daqueles que nos cercam, está alta demais e que precisamos nos humanizar. Precisamos criar as nossas referências, vermos melhor as quebras e chegar a um consenso, o de que muito se pode desde que projete a uma linha de permissão aonde o erro seja tão acolhido quanto o acerto, de forma que os medos não sejam guias, apenas ajustes. Precisamos aprender a ganhar de forma fluida e contínua o que seria uma derrota sólida e estática.

Saturday, August 3, 2013

Sofra

Períodos atrás, escrevi um post que falava muito da nossa natureza competitiva. Cheguei a citar sobre quando pessoas competem para ver quem esta sofrendo e/ou passando por desgraça de forma pior que o "outro”.

 

Há alguns dias tenho me atentado a algo curioso. Estamos tão carentes de nós mesmos que sofrer parece nos tornar mais merecedores de algo (seja isso o que for) ou, de alguma forma, isso parece ser um ensinamento que está lapidado em nossas mentes.

 

Alguém fala "nossa, estou triste", outro rebate, "mas, você tem tudo, como pode estar triste? Eu é que deveria estar, tenho isso e aquilo, estou numa pior".

No exemplo, fica claro que:

 

1 - Temos um grande prazer em negar os sofrimentos dos outros, como se não pudéssemos ter os nossos (o que torna justo aceitar o sofrimento do outro) e ainda por cima queremos enfiar de qualquer forma o nosso sofrimento, pedindo validação deste. Curiosamente, existe uma carta na manga que sempre me faz cair em realidade quando percebo que estou tendendo a fazer isso. Todos nós sofremos. Essa talvez seja uma das verdades que sustentem, para mim, o processo humano. Assim, isso quer dizer que devemos ter respeito e acolhimento com o sofrimento do outro até porque ao fazermos isso, o nosso sofrimento não é invalidado. Também, ao ouvirmos, podemos trazer luz para aquele que tem o emocional ligado à situação, trazendo a pessoa para outras direções, fator que torna o nosso (ou vários) ponto de vista importante. Além de que só de sermos capazes de legitimar o sofrimento quando nos dispomos a ouvir (que fique claro, sofrimento é diferente de drama) isso já ajuda em muito a pessoa ver que há vida além daquilo e que talvez ela esteja criando e intensificando muito o sofrer por não enxergar nada além.

 

2 - Esse segundo ponto é algo não tão claro. Todos sofremos, o que fazemos com este "sofrer" é o que realmente importa. Sejamos simples, todos, para crescermos, passamos por várias linhas e percepções da dor. Na infância, por exemplo, quando queremos muito um brinquedo não podemos ter por ser muito caro, frustramo-nos, esperneamos, mas nada fará, naquele instante, aquele brinquedo ser seu. Isto gera sofrimento, não importa se parece bobo ou infantil, ele é um sofrer. O que é feito depois que vai valer. Podemos espernear até nossos pais se irritarem e ganharemos castigos para "aprendermos" que o mundo não gira em torno de nosso umbigo. Logo, o sofrer se tornará maior. Pode-se espernear pelo castigo, fazendo este se intensificar. Em resumo, por insistirmos muito em algo que naquele instante é um "erro" tornamos o nosso sofrer uma imensa sombra de dor e desespero que,eventualmente, tudo se torna esse sofrer.

 

Entretanto, o mesmo sofrer se bem compreendido pode trazer as mais magníficas mudanças de percepção, atitude e de vida. Afinal, amadurecemos ou por amor (a nós mesmos) ou pela dor. Quando nos damos conta de que nosso sofrimento é um pedido (ou um chamado) por amadurecer é quando de fato estamos prontos para encarar da melhor forma aquilo. Tanto que sofrimentos presentes na infância que duravam em escalas infinitas, agora duram, se compreendidos e de vista consciente, apenas alguns minutos e rapidamente são transformados em outros pensamentos. Por isso, sofrimentos mais velhos ou mais profundos machucam tanto, por representarem um chamado de uma mudança de tempos remotos e longínquos que podem até habitar o esquecido de nossas mentes, mas jamais de nosso comportamento. Entretanto, temer o sofrer é temer inclusive boas mudanças, e aí, não há muito que reclamar (nesse caso é se vitimizar mesmo).

Wednesday, July 3, 2013

Quereres

Quando mais novo, ouvia uma repetida frase da minha mãe e da minha avó que era "meu filho, a gente quer quem quer a gente..." E por anos, essa frase me perseguiu.

Perseguição essa que se dava claramente pelo entendimento que se tem dessa frase, contra o comportamento expressado que muitos de nós vivemos.

Entenda, essa frase voltou à minha mente em uma recente discussão sobre "conquistas". Alegavam para mim, que quando queremos algo "difícil" temos que ser insistentes, para haver essa conquista.

Discordei o quanto pude e ainda discordo. Para mim, as coisas precisam ter um certo fluxo, como quando você começa um estudo e desse estudo milhões de ideias brotam e você tem memórias variadas de coisas associadas àquilo e assim por diante. Ou como quando você começa um projeto, que mesmo atrasado, parece que tudo flui tão bem, tão conexo, que não tem "problemas" enormes. Mas na verdade, lá no fundo, tem problemas, mas eles parecem tão fúteis ou solucionáveis, que não se tornam impeditivos. Parece que de certa forma aquilo/aquele te escolheu. Ou que de certa forma, houve uma paixão por aquilo e esta tendo correspondência.

Relacionamentos também deveriam ser assim. Mas ainda insistimos em "conquistar" o outro. Compreenda, para mim, a conquista é algo inerente ou facilitado, quando aquilo é também tomado por uma paixão a nós. Que fique claro, não estou tirando o mérito de um super atleta, que se dedica de corpo e alma a uma modalidade esportiva qualquer, até porque, para ele, deve ser a mesma coisa. Há uma paixão por aquele esporte que de alguma forma é correspondida.

Mas, voltando às relações, realmente acredito que elas acontecem. Quando há abertura em cada pessoa, para assumir o impacto emocional que cada um sofre. Também existe o revelar dos sentimentos, e, no final, existe a conquista. Pode haver empecilhos, mas de alguma forma, eles se tornam facilmente contornáveis.

Muitos ainda dizem que a relação tem que começar difícil para cada um valorizar a "conquista" e também para dar valor a quem esta se conquistando. Sejamos práticos aqui, se alguém sofre uma tremenda insistência de outro alguém para estarem juntos, essa pessoa pode simplesmente não perceber o tremendo esforço que há, daquele que clama (afinal pessoas apaixonadas perdem a dinâmica de força feita) e não dar um valor tão assim ou, pior ainda, aceitar entrar nisso pelo cansaço... Ainda acredito que essa relação tenda a uma não "diversão conjunta", talvez tão almejada. Apesar disso, concordo que muitos não dão valor quando as coisas vêm fácil. Mas se não der, não entra no esquema da conquista. A conquista em si tem a valorização daquele que mexe, não pelo tempo que mexe, mas pela forma. E também por isso, não há conquista falsa. Afinal, ela não perdura.

Sim, parece difícil de perceber quando há uma conquista, por ela não poder ser facilmente colocada em uma relação de 4 meses ou algo assim, seja com um estudo, com uma pessoa, por um projeto. Quando há conquista, há tempo, há abertura, há entendimento e há, talvez, o mais difícil, aceitação. E aqui, entra a grande citação da sabedoria de minha avó. A gente realmente só quer, ou só deveria querer, quem (ou aquilo) que nos quer. Tem haver uma reciprocidade. Querer quem não nos quer é igual a nadar contra a correnteza. Pode parecer um grande feito ao final, mas pode ser um afogamento virtuoso. Querer quem quer a gente sem o nosso querer, pode parecer fácil demais, mas se torna maçante e sem tempero. Por isso, aprendamos aceitação, aprendamos reciprocidade. Quem sabe assim, quebraremos esses velhos padrões de que a vida tem que ser "conquistada" e assim a conquistaremos, de fato.

Sunday, June 23, 2013

Perdendo o controle

Ainda temos muitos problemas com apego e relações de continuidade e curiosamente isso se constrói em muito do nossos medos. Aprendemos em vida a dificuldade de conquistar e controlar as coisas, mas deixamos de lado a realidade de que nem tudo precisa ser continuamente conquistado e que experiências de abdicar, perder, deixar e esquecer nos ajudam e muito. Temos uma incrível capacidade de perder o sentido ou de nos tornarmos totalmente fanáticos a alguns pensamentos ou ideias por acreditarmos que precisamos controlar. Infelizmente, vivemos numa certeza tão grande de alguns controles que certamente podemos definir isso como um pseudocontrole. Vivemos na condição de que sempre sabemos o que é melhor para o nosso caminho, da forma como esse caminho deve ser trilhado e como os outros provavelmente agirão, mas esquecemos que muitas das coisas que conseguimos e/ou conquistamos vieram até nós dentro da estrutura do “acaso” e que, na realidade, adicionando mais questionamentos sobre essa condição toda que possuímos, caimos num abismo mais profundo de uma realidade menos distante de nós (menos distante, por estarmos vivenciando ela diariamente, mas que está tão profundamente dentro do nosso condicionamento que está no nosso abismo pessoal).

Ninguém sabe exatamente como viver, porque viver ou quais as formas, “x”, “z” ou “y”. Qual delas seria a mais tranquila, a melhor escolha ou a mais assertiva ao nosso desejo ou quiçá à nossa transformação pessoal. Aprendemos a lidar conosco, mal e porcamente, e com outros ao nosso redor de forma menos acessível ainda, aprendemos a percebermos como sentimentos/impulsos funcionam e rezamos para que não caiamos em armadilhas que anteriormente se tornaram prisões e salas de tortura por uma grande incapacidade nossa relacionada a alguém ou algo e por não compreendermos ou não aceitarmos a condição daquele processo, até aquele momento, que por mais que quiséssemos talvez fosse melhor não ter e ir regulando a nossa dinâmica de existência mediante a tudo isso. Por isso, em várias eventualidades, caímos nos fanatismos, em especial, no autofanatismo.

Quando pensamos nas várias dinâmicas de todos esses questionamentos, realizamos que a nossa capacidade de viver é ir regulando dentro dos muitos erros cometidos e quando isso acontece, percebemos que na vida existimos em erros e não em acertos. E por isso, talvez, tentar procurar uma perfeição é o que nos torne tão sedentos por controle. Tentamos loucamente controlar tudo e todos e no final de toda essa vivência, percebemos que não controlamos nada. Frustrante talvez seja uma palavra pequena para o que de fato isso é passado. Não temos controle sobre nossas compreensões nem sobre nossas interpretações. 

Muitas vezes, nossos sentimentos nos traem, nossos medos nos dominam e nossas teimosias nos jogam de volta para o mar de incertezas que um dia passamos e juramos a nós mesmos não retornar. Repetimos padrões e erros que prometemos vezes e vezes não repetir e apresentamos àqueles mais íntimos esses erros, na medida em que eles possam talvez aprender de forma menos dolorida. 

O problema é que apesar de vivermos num mundo de padrões, ainda existem casos de probabilidade onde um padrão se torna o novo e se desintegra dentro do modelo. Esse por sua vez é extremamente necessário para renovação ou quem sabe para o novo. Por isso, que quando familiares ou amigXs, conversam e apresentam um problema, que por muitos já foi vivido, existe muito uma tendência de, quando solicitados, ajudarmos com aquilo que podemos, sabemos ou já tenhamos vivido. Nisso geramos um laço do não abdicar e do não querer deixar que eles passem pela dor de um erro ou de uma ilusão por nós vivenciada. Trazemos o afeto de um jeito egoísta por temermos ver aquele que tanto amamos com a dor de algo que poderia, aos nossos olhos, ser evitado ou abandonado, mas esquecemos que quando nós fomos no caminho contrário ao senso comum de familiares, tivemos nossa medida de experiência e até de realidade não digesta. Aprendemos e nos tornamos maduros e experientes com tudo isso.

Por isso, ver pais brigando com seus filhos para que eles façam algo, que sob seu olhar é o certo, tentando ter controle das ações e pensamentos e criando o que deveria ser o modelo de uma boa vida, mesmo que aos olhos do filho o semblante seja o da extrema tristeza pelo que foi feito, orgulho apenas com o construído e pouco aproveitado patrimônio ou do medo ou da incapacidade pelo que aquele sofrido ser passou, nos torne tão distantes de algumas coisas nossas. Como filho, vivenciei com tristeza e raiva em vários momentos e situações, o “controle” que minha mãe queria ter sobre mim e minhas decisões. Sei que se ela classificasse isso como “por amor”, talvez aceitasse a “desculpa”. Entretanto, claramente via como o “medo” do meu sofrimento e em vários momentos do sofrimento dela. Saber que o medo foi dominante e que por vezes caí nesse padrão, até por ser o meu modelo de aprendizado, hoje torna até mais tranquilo quando peço auxilio a ela. 

Por ter, agora, a clareza que somos seres diferentes, aproveito da sua sabedoria para melhor embasar a minha decisão, correndo ou não os riscos, mas sabendo que seja qual for a minha decisão, mesmo que eu ouça “eu avisei você”, fiz por precisar ver/sentir/viver algo que estava, talvez preso, em mim, e que seja qual for o resultado, triste ou feliz, ganharei o suporte necessário para manter, seja qual for, a continuidade.

Monday, May 13, 2013

Relações x Expectativas


Quando tinha 13 anos, possuía alguns amigos bem próximos, daqueles que nunca se separam e que (quase) todo mundo já teve.
Um dia, sem aviso prévio, um deles comentou algo que ficaria marcado para sempre na minha vida:
"Se algum dia perdermos contato e nos encontrarmos depois de alguns anos, vamos nos tratar como desconhecidos?"
Prontamente respondi que não. Afinal, como amigos de tão longa data iriam perder e contato? E mesmo que o fizessem, por qual motivo haviam de se tratar como estranhos?
Concordamos e o assunto foi encerrado.
Alguns anos calejados vieram, a faculdade, o trabalho, as responsabilidades da vida adulta não mais esperavam ser consideradas para trotarem vida adentro e, com isso, experiências de relacionamentos diversos e outros ficando no caminho. Inclusive o desse amigo.

A análise crua de um relacionamento mostra que ele nada mais é do que um alinhamento de expectativas entre duas ou mais pessoas, que caminham juntas para atingir um objetivo comum, por menos claro que este seja.
Alguns sabem identificar este objetivo e tem mais facilidade para lidar com ele ou até moldá-lo. Outros, parecem escravos deste.
No primeiro sinal de desencontro, instaura-se o caos e o relacionamento desmorona para o sentido inverso, como que numa tentativa de compensar o investimento já realizado na outra pessoa.
Esse é um mecanismo de defesa muito comum que busca um fim nobre: nos manter sãos e alinhados à nossas expectativas iniciais, além de tentar justificar as "perdas" decorrentes da especulação mal sucedida.

Estamos acostumados com o controle. Viciados, apoderados dele e por ele. Qualquer mudança brusca que fuja desse padrão nos faz procurar de forma cega e desesperada por algum engaste, de modo a retomar as rédeas imaginárias de nossa vida. Isso, porém causa a sensação inebriante de que temos responsabilidade por todos os fatos acontecidos durante a nossa jornada, sendo eles, na verdade, causas ou consequências de uma infinidade de fatores influentes.
A compreensão dessa realidade nos liberta dos grilhões da culpa (ou ao menos da associação obsessiva à ela) e nos possibilita tratar de forma mais saudável as escolhas e decorrências destas, selecionando o peso que cada um destes fatores terá no julgamento de nossas próximas ações.

Assim sendo, a divergência nas expectativas de qualquer relacionamento pode ser tratada de forma mais saudável, sem a necessidade de demonização dos demais envolvidos ou de si mesmo, compreendendo que todos ali representam o mesmo papel e estão sujeitos à influência de cargas emocionais trazidas de cada experiência pessoal vivida, cabendo a responsabilidade individual de tratá-las de acordo com sua maturidade.

O sucesso está presente em cada investimento, mesmo que comumente disfarçado de falha.
E o amigo? Nos encontramos muitos anos depois e absolutamente nada mudou. (:

Thursday, April 18, 2013

Pena

Pratico yoga há cerca de 5 anos e desde então varias coisas em minha vida mudaram.

Todas essas mudanças aconteceram no meu psicológico. Aprendi a respeitar mais o tempo de algumas coisas, aprendi a julgar menos, observar mais e me qualificar melhor dentro de um espaço pessoal. Aprendi a ver que muitas dificuldades que eu tinha eram apenas padrões em grande estado de repetição e várias outras coisas que talvez não faça muito sentido escrever agora.

Por todos os anos de prática, eu sempre ouvi a seguinte frase "pratique e pare de ter pena de si". Por algum motivo achava essa frase extremamente agressiva e havia um bom incomodo junto de mim por todas as vezes que a ouvi. Curiosamente, ouví-la era como quando sentado torto, alguém vira para e fala "senta direito". Nesse momento existe uma forte tendência a tentar dar o máximo de si para sentar de forma correta, mesmo que não se saiba ao certo fazer isso. Mas a frase dita repercutia em minha mente para procurar o porquê do incomodo que tanto me abalava. Com o tempo, aprendendo a ver que meu limite máximo era meu medo ou minha teimosia, comecei a me dar mais crédito para acessar algumas coisas e uma delas foi uma parte do incomodo mencionado. O incomodo era por eu ter sim, uma boa dose de pena de mim. Afinal, como alguém como eu poderia ser merecedor de algo? Ou pior, por que eu fazia tanta questão de ser merecedor? Por que achava que o que construía não tinha valor? Não tinha nada de físico para comprovar que eu tivesse algum valor dado ao que era considerado assim. E por que queria tanto ter algum valor? Por que insistir em algo que vai ser finito?

Assim, claramente eu tinha dúvidas contínuas, que deixavam claro a minha insegurança e a minha pena de mim mesmo. Entretanto, na hora de praticar, diariamente estava eu sobre o meu tapetinho, procurando respostas que pareciam completamente inacessíveis. Infelizmente, eu acessava as dúvidas, mas não saia muito disso.
Em 2012, depois de enfrentar alguns problemas, que foram tratados de forma prolongada, eu fui acometido por uma pneumonia que me impossibilitou de muitas coisas. Dentre elas, de mim mesmo. Por mais filosófico que isso pareça, aquele órgão que eu tinha trabalhado com tanto fervor e consciência, havia me deixado de lado, ou ao menos, eu me sentia assim. Por mais que procurasse ver os vários ângulos, não concebia uma pessoa que dedicou a vida a se cuidar e que caiu na malha da desgraça. Ler isso te mostra claramente que eu estava sendo vítima de mim. Tendo tanta pena que eu sofria por ser aquele que simplesmente caíra. Como os problemas continuaram com o seu prolongado sistema, perdi muita coisa. Tudo o que tinha de material acumulado tolamente foi perdido. Restaram apenas família, alguns amigos, que sempre me ajudaram muito, e o yoga. Apesar de tudo, a minha identidade, como alguém livre de várias coisas, havia se quebrado e por não me reconhecer com nada, parte se mim desejava uma única coisa, morrer. Por mais complicado que isso fosse e por mais dolorido que parecesse, tudo isso foi o melhor que me aconteceu. Aprendi a rever conceitos que considerava que estavam meio errôneos, como por exemplo, viajar e ir a show com amigos, dentre algumas várias outras coisas. Válido? Mais que isso, transformador. Sentia que desde o momento que havia saído do hospital, eu tinha deixado algo completamente certo de um monte de várias dores e saia alguém que compreendia que as coisas poderiam ser mais plenas.

Tal plenitude me trouxe amigos mais parecidos comigo, revelou máscaras que precisavam beijar o chão (minhas e de outros), revelou que eu precisava usufruir de algumas coisas a muito ensinadas verbalmente, mas que não tinham exemplos claros ou convictos. E que assim eu faria os meus próprios exemplos. Eu me tornaria, no meu máximo, com meus erros, aquilo que eu sentia que deveria me tornar. Mas havia ainda algumas coisas fora de ordem. O yoga ficou intermitente pela recuperação e meu corpo e eu começamos a nos estranhar. Estranhamento esse que me levou a um dia de fúria comigo mesmo. Percebi que ainda estava na minha pena. Claramente, tinha me transformado em muito, mas ainda estava com pena daquele que usou toda a sua capacidade para se isolar, relacionar-se com o mínimo no máximo. E se deixar levar. Se perder e achar que não tinha mais retorno, não que todo o processo fosse esse, mas havia muito disso ali colocado. A grande pergunta foi feita. "Por que ainda sinto pena de mim?" Entendimento não era algo que me faltasse, saber ouvir os outros também não era um problema. Então, onde estava incompleto?


Resolvi, numa segunda, retornar do jeito que fosse para meu corpo. Se ele tinha causado tanta irritação, ele quem me desse a resposta. Voltei a praticar com regularidade o meu yoga, tentando ao menos fazer 10 minutos de uma prática que anteriormente durava 2h30. Seja como for, o retorno parece sempre mais complicado que o primeiro passo. Após uma semana, cheio de ideias e planejamentos, percebi que muitas ideias vinham de uma continua dose de medo de não fazer. De saber que dali nada sairia. Vi amigos próximos realizarem algo que era parte da minha imagem, ainda antiga, mas boa, que precisava ser retornada a mim. Afinal, eu estava num estado deplorável. Resolvi ver fotos antigas de momentos que considerava importantes. Cheguei a perceber que sempre tive o mesmo problema em vida, eu sempre me sentia num estado deplorável.

Completamente consciente a isso, resolvi que faria diferente, para não cair na velha premissa de Einstein, precisava fazer diferente. Mesmo que minha sinusite aparentemente não deixasse. Tentaria algo novo. Assim, sempre que eu olhasse para dentro e sentisse que estava com pena de mim, faria algo para sair do estado que me encontrava.

Desde então, sinto duas coisas. A vida vale sentir pena de si, para permitir ver que você pode aprimorar e melhorar. A pena não é ruim, o que você faz com essa pena é que pode ser completamente autodestrutiva (assim como raiva ou qualquer outro sentimento que paralise os pensamentos em troca de algo que não seja seu).

A segunda coisa é que fica mais fácil agir em prol de si enquanto você sabe o que acontece. Por isso, buscar o conhecimento de cada emoção e de cada momento para entender isso. Lembrar-se que nossos defeitos existem e que por eles temos uma tendência a termos pena ou raiva de nós e saber que no mundo eles serão colocados na boca de outros vezes e vezes, queridos ou não. Isso mostra que o sentimento em si pode habitar a cada passo e talvez, só sejamos capazes de nos ver se aprendermos a respeitar algumas coisas claramente em nós. Assim valha, talvez, saber usar bem a afirmativa "Para de ter pena de si" sabendo quando tem pena de si.