Wednesday, August 21, 2013

Para mim, eu.

Reconheço minha clara dificuldade em aceitar a realidade e também ao meu próprio espaço por simplesmente recusar a realidade. Estranho falar isso assim, mas há pouco tempo tenho aprendido que aceitar a realidade constitui de primeiro aceitar a si estando nela. De alguma forma, não aceitar estar nela me fazia encontrar muito de mim em um plano perfeito de existência que não me dava o real de mim.

Existe algo em nós que vai além do ego e por qualquer motivo que seja ou se sinta isso, é realmente gratificante. Acessar isso é realmente bom. Pense um pouco e se responda, quando foi a última vez que se sentir você foi algo que não lhe pareceu nem pedante e nem ruim?

Parece que atualmente ser a si é pedante, e de fato o é, se para isso precisamos impor ser isso. Se o próprio espaço, regras, limites e verdades necessariamente precisam ser maiores que a dos outros. Se a rejeição que continuamente é aplicada às regras dos outros são colocadas de forma prioritária para você se sinta bem. Se só e somente quando alguém acessa a vida da mesma forma que a estrutura de pensamento aplicada a esta, torna a pessoa boa ou realmente legal, caso contrário, ela simplesmente não é tão legal assim e talvez não muito merecedora do meu eu, do meu esforço e assim sendo da minha pessoa, aí sim, ser a si é pedante, é arrogante.

Mas para alguém ser a si pode ser extremamente ruim, opressor e de certa forma vergonhoso e não, não falo da questão desta ser necessariamente uma pessoa ruim, só que ela sente que gostaria de ser qualquer pessoa, que não ela mesma, por sentir que o próprio espaço, regras, limites e verdades sejam, de alguma forma, desnecessárias ou ruins, que verdades alheias sejam mais interessantes, que suas necessidades sejam apenas uma manutenção do espaço e que o mundo não reserve além de algumas pequenas migalhas para ela em nível de uma boa vida, rejeita a si e procura no mundo uma satisfação que talvez nunca venha, por não se querer de fato a satisfação.
Entretanto, para nós, o processo de ligação à realidade se dá muito na conexão do que vemos e de como vemos. Aprendemos que as pessoas que rejeitam aos outros de alguma forma, sabem bem o que querem e assim possuem uma boa autoestima, e aqueles que rejeitam a si tem uma má autoestima. Aprendemos isso quando vemos que algumas pessoas são simplesmente colocadas como de "gênio forte" e recebem por algum motivo um tratamento especial como se a estima delas valesse mais que a de outros e pessoas mais apáticas, pessoas que se questionam e questionam muito o espaço que as cerca, que rejeitam elogios por verem uma realidade diferente, são pessoas mais fracas e assim possuem uma baixa estima. O problema é que nisso criamos monstros sociais sempre presos a uma questão ilusória de "estimas" aonde, no fundo, pouco realmente é ensinado sobre isso. Aprendemos que uns nascem para serem fortes e outros para serem fracos e vivemos nessa grande guerra natural que de natural nada de fato tem. 

Esquecemos, ou talvez nunca aprendemos, que ser a si é saber que é possível ter espaço, ideias, pensamentos e jeitos, sem questionar o que o outro tem. Colocamos a nossa rejeição ou contra os outros ou contra nós mesmos e vivemos de forma que isso pareça ser aceitável. Ter espaço e ser a si é perceber que aceitar as diferentes ideias dos outros e trocar com os mesmos em nada constitui ter que mudar para mais perto ou mais distante daqueles ideais. Não existe a necessidade de impor nada e nem de rejeitar nada.
Passamos pela vida vendo e recebendo imposições, como se existisse uma clara superioridade entre uns e outros e um aceite dessa superioridade. Vemos pais, mães, chefes, namoradxs, amigxs que vivem nisso. Uns impõe a ordem, ser a si é um problema, e os outros aceitam. Só que esquecemos que se criarmos esse ciclo, sempre estaremos presos a ele. Porque se aqui se é superior, ali, pode-se ser inferior e para quem sempre se sentiu rei, sentir-se algo que não rei se faz perder muito daquilo que se conquistou e aí se volta a uma rejeição.
Aprendemos que espaço é aquilo que impomos sobre os outros, mas com qual finalidade? Ter nossos desejos atendidos? Não seria melhor ter os desejos atendidos num panorama de igualdade?

Nisso, no quanto eu consigo colocar o meu espaço, com segurança em mim, me sentindo bem e sentindo que consigo ouvir o outro, sem me mover a impor nada, tem estado a minha autoconfiança e minha estima. Ninguém vai viver pelas verdades alheias para sempre, as próprias tem que sair em algum momento e de alguma forma, acreditamos que quem gritar mais alto é quem vai ser o mais ouvido, ou quem espalhar mais rápido uma notícia será o seguido. Mas ambas as expressões não passam de um medo em crescimento com um pedido rápido e de forma opaca por aprovação externa, e não representa uma boa autoestima. Assim, como simplesmente aceitar a verdade externa com medo do conflito, medo de ser diferente e viver de forma a respeitar o mesmo ambiente, mas com pensamentos que podem ir à oposição (dentro do limite, óbvio). Começar a observar isso faz com que caiamos na nossa necessidade de ter aprovação para podermos seguir, mas porque essa aprovação pesa tanto, se todos somos dotados de poder de discernimento e se o respeito ao espaço do outro deve ser de um tamanho equivalendo ao respeito ao próprio espaço.

Para mim, o meu espaço tem ficado entre os perdões, o autoperdão e o perdão ao outro, considerando ainda que o perdão não fique entre a humilhação de assumir um erro e pedir por uma compreensão disso, e nem a necessidade de que preciso estar pedindo perdão para poder viver a vida e expressar minhas vontades. Respeitar as características (qualidades e defeitos) que cada um carrega é inclusive respeitar as características que se é e isso é autoestima, por não ser dotada de medo qualquer para guiar apenas o eu.

Friday, August 9, 2013

...do abdicar e do tempo.

Há muito tempo a sociedade conhece a história de agir em prol de um medo qualquer por uma certeza futura, e no final de tudo, de todo esforço e toda luta contra este medo, o futuro já aguardado se confirmar em certeza. O mito de Cronos deixa bastante exposta esta realidade.Cronos (mito grego, o romano virou Saturno) um titã que temia ser destronado e por isso devorava os filhos. Pelo medo de perder o suposto poder fez uma das coisas que, para sua esposa Reia e vários outros titãs/deuses, claramente representava uma atrocidade. Mas, como seu medo era maior, manteve-se na crença de que se agisse em prol dele, controlando ao máximo as variáveis que julgava ser possíveis de controle em relação a isto, acaba por ser enganado por Reia e Zeus, seu filho mais novo é salvo e trocado por uma pedra. Ao ponto que Zeus, ao crescer, se junta e destrona o pai. Nisto, percebemos com clareza que todo o medo e toda energia gasta por Cronos para permanecer com o seu poder foi exatamente o que fez com que este fosse destronado.


Afinal, se tivesse agido de forma racional e emotivamente coerente, teria trabalhado o medo e não agido de forma passional a ele. Relacionando-se com o presente, o mito ganha uma força adicional de, inclusive, percebermos que várias das histórias que se passam ao nosso redor são construídas com a mesma base. Veja, por exemplo, o episódio III de Star Wars e você verá que o nascimento do Darth Vader se faz com a clara percepção futura do medo de fazer a princesa sofrer e morrer. Quando Anakin age com toda sua força para evitar a visão que teve, é automaticamente transportado para ela. Assim, de tanto evitar, acabou causando.


Trazendo o milenar mito para a nossa vida contemporânea, vemos o quanto nada aprendemos mesmo com vários possíveis dicionários sobre alguns percursos da vida. Vejo diariamente, tanto em mim quanto em amigos, o quanto nos esforçamos em prol de um medo, acreditando que se ele for o centro da nossa atenção, não deixaremos que ele nos atinja, mas no final, estamos nos movendo em direção à ele. Tornamo-nos rápidos especialistas, alteramos nosso estado de ser e muito é movido contra e não a nosso favor, com isso, temos várias situações criadas a partir de nossos medos, tornando-nos nossos maiores monstros e com isso sofremos as consequências de sermos, mundo à fora, exatamente estes monstros, em sua forma crescida e alimentada e confusa. Muito do sentimento do medo acaba associado à própria identidade e esta pode estar sendo colocada em risco, na cabeça da pessoa. Nisto o abdicar entra como uma ferramenta de emergência sobre a situação da própria identidade e da situação. 

Da identidade, porque quando percebemos de fato o que somos e que no fundo estamos inseguros, nesse estado acabamos por realizar uma dor sobre nós mesmos e para dar a segurança de volta ao processo é necessário estar apto a perder. Esta perda, tem que ser de forma consciente, de forma a que você abdique por amor a si, assumindo que não precisa carregar o fardo da questão.


Da situação, porque muitas situações geradas pelo medo, são situações que levam as pessoas uma obsessão clara de que nada, pode sair do seu controle e qualquer coisa que aconteça, será ruim. Nisso desprende-se de muita para tender manter o tal "controle" em ordem e funcionamento. Por isso, pessoas que escolhem deixar as situações acontecerem e quando de fato são colocadas em conflito, seja por uma pergunta direta, seja por uma relação de entendimento trocado ou qualquer coisa que o valha, conseguem ter mais lógica de raciocínio, ao invés de simplesmente reagirem à algo detendo assim a capacidade de recriar ou criar de fato, a própria história. 


Criemos a possibilidade de refazermos nossos mitos. Imagine se Cronos tivesse a possibilidade de refazer. Provavelmente, teria sido um pai amoroso e dedicado poderia mostrar a relação de algumas questões de forma sincera aos filhos, mostrando que não é errado sentir medo, frustrar-se e qualquer além, poderia escolher abdicar o trono e passar a vez a quem julgasse ser mais íntegro dos que gerou. Afinal, combater medo com compreensão mostra o quão nosso coração ainda se mantém capaz de ser e mostra o quão ainda conseguimos acolher (a nós e aos outros) e esse acolhimento é o abdicar do controle do medo. E nada melhor para sairmos do nosso caminho de medo com um pouco de amor e acolhimento. Ninguém nunca será fraco por reconhecer e ter um medo (até porque todos nós temos), mas torna-se mais forte aquele que procura não viver por ele e mais ainda aquele que sabe a hora de abdicar para não chegar ao ponto final.

Como disse uma amiga: "Desapego do soltar, entregar, deixar ir, deixar partir, fluir, viver no presente, sem o peso do passado, sem expectativas para o futuro, saber de nossa finitude, saber que somos passageiros, sem posses, sem medos, sem culpa."


Wednesday, August 7, 2013

Do tempo e do abdicar...

Acredito muito que cada um de nós tenha limbo emocional. E chamo de limbo por ser aquele ponto que as coisas ficam escuras, perdidas e literalmente infernais sobre os próprios sentimentos que possuímos. Racionalmente temos a clara dificuldade de sair da espiral da dúvida e ainda acabamos, geralmente, trocando os pés pelas mãos. Nisso, várias situações que facilmente seriam resolvidas por uma fácil e digestível conclusão, se tornam novelas emocionais que mesmo, às vezes, durando algumas horas, pesam e doem como se durassem, literalmente, uma eternidade. Quanto a este limbo, acredito que cada um vá ter o seu e que pessoalmente devemos buscar formas de encarar isso.

Eu, por exemplo, tenho 2 limbos emocionais de percepção clara para mim. Um deles é quando encontro alguma mulher que considero linda (sim, tenho uma questão com beleza, me julguem), afetivamente e intelectualmente compatível. Primeiro, por achar raras as pessoas que aparecem assim em minha vida. Segundo, porque eu sou bastante pragmático ao me envolver afetivamente. Sei que sou extremamente sincero, especialmente com meus sentimentos, e por isso revelo de forma intensa e necessária aquilo que sinto, julgo isso como inocência, mas mesmo quando tento não ser tão inocente me sinto sendo falso e acredito que se aquela me leva a isso, melhor distanciar. Afinal, se não posso ser eu mesmo com aquela que ali se apresenta para mim, melhor não ter nada com aquela pessoa quem sabe, talvez, numa última instancia uma certa amizade. Até porque, convenhamos, depois de tantos anos me questionando tornou extremamente fácil ser cortante, mas extremamente difícil não ser aceito pelo que sou, ou de não viver algo na mesma forma emocional do que sinto.

O outro processo é o claro sentimento de rejeição que construí sobre mim mesmo. Talvez meu terapeuta pudesse falar melhor sobre isso, mas vivi uma vida aonde a seleção não era de fato minha, por algum motivo sempre me permiti ser escolhido (dentro de alguns cenários da vida) e aquelas escolhas por mim feitas se tornaram voláteis, não que não fossem importantes, mas que talvez o peso da escolha me desse mais responsabilidade sobre o processo de ter sido selecionado e esses cenários de fato são bem conhecidos por mim. Onde, claramente, se juntar o 1 com o 2, teremos um processo aonde essa união se cria de forma bastante drástica.

Você pode até se questionar, "por que alguém fala sobre isso tão abertamente?". Porque acredito que seja mais fácil você perceber a estrutura de si quando joga de forma aberta. Acredito que se alguém chegasse para mim e falasse que gostaria da minha amizade por ter tendências suicidas e que ao meu lado se sente confortável, eu aceitaria melhor aquela estrutura sobre todo o processo do que vivo, ao contrário de alguém que se mostra muito maroto e me deixa perceber de forma ativa defeitos com os quais não consigo conviver. Pode não parecer tão transparente, mas para mim é mais fácil aceitar o outro e respeitar quando este sabe de defeitos que carrega de forma bizarra, do que pessoas que vivem uma bolha da beleza, da economia comportamental e da própria dificuldade de aceitação. Por ser uma pessoa extremamente empática, acredito muito que quanto mais eu sinto a vida, mais sou capaz de sentir o outro. Afinal, quanto mais situações passo, mais fácil digerir ou compreender é aquilo que se vive. Por isso, o meu primeiro limbo emocional é tão complicado, porque poucas pessoas entendem ou vivem ou compreendem isso. Quanto ao segundo, que é muito mais palpável as pessoas serem rejeitadas, seja da forma que forem até porque ninguém ensina a lidar com isso de uma forma madura. Nossos primeiros traços de rejeição, seja pelo que forem, começam na infância e com isso a rejeição em si nos leva a esse ambiente tão conhecido.

Então, qual a grande situação disso tudo?

O grande processo aqui trazido é e sempre será do tempo. O tempo, esse mestre tão revelador e a tanto esquecido. Se você pensar com carinho, temos tempo para tudo, menos tempo para refletir sem estar em demanda com algo ou alguém para podermos apaziguar os nossos sentimentos e nos reconstruirmos dentro de um pensamento que está se tornando cíclico devido ao nosso próprio sentimento infantil sobre algo. Por vezes, meu tempo foi um múltiplo de sentar e conversar em várias situações com uma mesma pessoa que considerava tão empática quanto eu e que minimamente me falasse "eu faria isso" ou "você está fazendo isso, talvez seja melhor fazer de outra forma". Claro, que se ficamos muito tempo refletindo num vazio, fazemos desse vazio uma sala de tortura. Por isso, pessoas que estão de férias e em constante situação de não fazer nada sofrem. Sofrem por não darem um tempo para o próprio ciclo de pensamentos que é continuamente construído. E é aqui, para mim, que têm sido apresentados vários insights. Tomar uma decisão, mesmo que dolorida, cabe mais do que encarar uma realidade completamente composta e colocada sobre o meu limbo emocional. A nós, saber que o mundo tem seus movimentos de propósito, cabe a paciência, mas para o nosso ciclo de pensamentos infinito, não há tempo para se torturar. Então, paciência aqui não resolveria muito a questão.

Então, procurar encher a cabeça poderia ser a solução?

Não. Acho que a melhor solução é encarar o ponto da dor com o abdicar. Lembrar que não há situação que seja única e exclusiva na vida e que se for e você a perder, é porque aquilo não faz parte de você, não precisamos de nada que nos adoeça, seja psicologicamente ou seja fisicamente, e talvez realmente seja melhor perder, isso ajuda a lembrarmos que somos humanos, que não precisamos nos robotizar para sempre acertar, até porque na vida erramos muito mais que acertamos e vários desses erros se tornam os acertos que vemos como necessário para uma continuidade de um longo processo e é dentro dessas perdas, falhas e situações que encontramos, talvez, o movimento para tornarmos únicas e exclusivas algumas coisas...

Tuesday, August 6, 2013

Entre estilhaços e projetos...

Há dias eu tenho pensado em algo que me falaram. O curioso é que mesmo que eventualmente eu consiga me deslocar mentalmente para várias outras situações, quando o calor do momento se apaga, eu retorno ao pensamento sem qualquer outra forma de desvio. Chega a ser meio ridículo o quanto consigo ser obsessivo com algumas coisas e, para piorar a citação, ela é muito válida. A frase foi: "Você é o tolerante mais intolerante que conheço".

Por mais que inicialmente parecesse besteira e que a situação se mostrasse simples, ela veio de encontro a um grande momento de questionamento de algumas coisas para mim, sobre mim e o pior, é que me pareceu ser uma das frases mais sinceras que eu ouvi sobre alguma das minhas dificuldades.

Dentro de toda essa situação, percebi algumas coisas de comportamentos pessoais e de pessoas próximas que seus ápices se apresentam em paradoxos de personalidade que trazemos. Chega a ser engraçado, para não dizer trágico, o quão quebrados todos estamos e quão vivemos numa inteireza não existente. Não conseguimos assumir que possuímos sim uma quantidade de medos infantis e que vivemos sob o reflexo de todos, mas nos colocamos a um posicionamento certo, concreto e absoluto, na maioria das vezes, para falar de incertezas. 

Vivemos em busca de questões e desafios, de metas e de aventuras, mas, por vezes, tememos questionar ou abdicar delas, pela energia gasta, pelo orgulho do que foi criado ou por medo de não tentar ir ao máximo, como se toda energia que tivéssemos não pudesse ser desperdiçada.Entretanto, caímos nisso com um risco de várias coisas e que bom que estas existem. Porque elas fazem nós perdermos no nosso próprio processo e porque não dizer no nosso próprio jogo. Pensemos que quando nos determinamos a fazer algo existe apenas a direção e uma energia inicial a movimentar-se com "aquilo". Nisso, sempre travamos conceitos e batalhas contra os outros ou contra nós mesmos em busca de conseguir e conquistar aquilo que gerou essa movimentação inicial. Por vezes, vamos ter a recompensa de fato almejada, mas por outros momentos, talvez maiores que ter o que desejamos, teremos uma situação aonde "perdemos". Perda esta no nosso tabuleiro, nas nossas regras criadas, no nosso espaço escolhido, com a nossa melhor arma e por aí vamos... Esta se dá, em parte, por não unirmos um bom entendimento do projeto ao que planejamos de fato. Perdemos porque desejamos de um jeito estático, robótico, sólido e rochoso que faz parte do nosso desejo enquanto farelo e nisso ganhamos uma possibilidade que pode ir de encontro a uma boa análise clara e nada clássica, de onde observamos um padrão de investimento que temos, que vivemos e sentimos em nossa condição mais evidente enquanto humanos, é a da derrota. Não estou falando que somos derrotados ou sendo derrotista, mas quando estamos no chão, após uma derrota, fica claro ver que perdemos e ver que somos humanos. Basta assumirmos isso, somos humanos, podemos errar, podemos investir errado, mas posso ser um humano mais aceito da minha condição, ou um humano que está sempre num conflito disso, que faz muito ao sacrificar-se por seus próprios erros, por enxergar com tanta clareza toda essa dor e falha, tentar aprimorar na necessidade emergente disso e tornar toda dificuldade um monstro.

Aceitar o processo de que estamos numa grande guerra entre sermos nós, ou sermos um robô, que almejamos perfeição em várias das nossas escolhas, torna menos dolorida a questão de uma possibilidade de erro, e mais fácil o abdicar. Assim, fica mais fácil enxergar os estilhaços e viver de forma a se reconstruir do que de forma a viver como se fosse um inteiro que procura sempre uma forma nova, para poder tentar se reconstruir. É difícil acessar que por muito do que construímos a nós, vivemos numa infinidade de possibilidades de um mesmo quebra-cabeça e que não tem referências de montagem.Temos referência de quebra, porque ainda absorvemos e trazemos muito dos erros e acertos dos nossos pais. Mesmo que detestemos ou ignoremos isso. Aprender a enxergar a quebra de cada um auxilia a abaixar a cabeça e compreender que a nossa demanda por perfeição, de nós e daqueles que nos cercam, está alta demais e que precisamos nos humanizar. Precisamos criar as nossas referências, vermos melhor as quebras e chegar a um consenso, o de que muito se pode desde que projete a uma linha de permissão aonde o erro seja tão acolhido quanto o acerto, de forma que os medos não sejam guias, apenas ajustes. Precisamos aprender a ganhar de forma fluida e contínua o que seria uma derrota sólida e estática.

Saturday, August 3, 2013

Sofra

Períodos atrás, escrevi um post que falava muito da nossa natureza competitiva. Cheguei a citar sobre quando pessoas competem para ver quem esta sofrendo e/ou passando por desgraça de forma pior que o "outro”.

 

Há alguns dias tenho me atentado a algo curioso. Estamos tão carentes de nós mesmos que sofrer parece nos tornar mais merecedores de algo (seja isso o que for) ou, de alguma forma, isso parece ser um ensinamento que está lapidado em nossas mentes.

 

Alguém fala "nossa, estou triste", outro rebate, "mas, você tem tudo, como pode estar triste? Eu é que deveria estar, tenho isso e aquilo, estou numa pior".

No exemplo, fica claro que:

 

1 - Temos um grande prazer em negar os sofrimentos dos outros, como se não pudéssemos ter os nossos (o que torna justo aceitar o sofrimento do outro) e ainda por cima queremos enfiar de qualquer forma o nosso sofrimento, pedindo validação deste. Curiosamente, existe uma carta na manga que sempre me faz cair em realidade quando percebo que estou tendendo a fazer isso. Todos nós sofremos. Essa talvez seja uma das verdades que sustentem, para mim, o processo humano. Assim, isso quer dizer que devemos ter respeito e acolhimento com o sofrimento do outro até porque ao fazermos isso, o nosso sofrimento não é invalidado. Também, ao ouvirmos, podemos trazer luz para aquele que tem o emocional ligado à situação, trazendo a pessoa para outras direções, fator que torna o nosso (ou vários) ponto de vista importante. Além de que só de sermos capazes de legitimar o sofrimento quando nos dispomos a ouvir (que fique claro, sofrimento é diferente de drama) isso já ajuda em muito a pessoa ver que há vida além daquilo e que talvez ela esteja criando e intensificando muito o sofrer por não enxergar nada além.

 

2 - Esse segundo ponto é algo não tão claro. Todos sofremos, o que fazemos com este "sofrer" é o que realmente importa. Sejamos simples, todos, para crescermos, passamos por várias linhas e percepções da dor. Na infância, por exemplo, quando queremos muito um brinquedo não podemos ter por ser muito caro, frustramo-nos, esperneamos, mas nada fará, naquele instante, aquele brinquedo ser seu. Isto gera sofrimento, não importa se parece bobo ou infantil, ele é um sofrer. O que é feito depois que vai valer. Podemos espernear até nossos pais se irritarem e ganharemos castigos para "aprendermos" que o mundo não gira em torno de nosso umbigo. Logo, o sofrer se tornará maior. Pode-se espernear pelo castigo, fazendo este se intensificar. Em resumo, por insistirmos muito em algo que naquele instante é um "erro" tornamos o nosso sofrer uma imensa sombra de dor e desespero que,eventualmente, tudo se torna esse sofrer.

 

Entretanto, o mesmo sofrer se bem compreendido pode trazer as mais magníficas mudanças de percepção, atitude e de vida. Afinal, amadurecemos ou por amor (a nós mesmos) ou pela dor. Quando nos damos conta de que nosso sofrimento é um pedido (ou um chamado) por amadurecer é quando de fato estamos prontos para encarar da melhor forma aquilo. Tanto que sofrimentos presentes na infância que duravam em escalas infinitas, agora duram, se compreendidos e de vista consciente, apenas alguns minutos e rapidamente são transformados em outros pensamentos. Por isso, sofrimentos mais velhos ou mais profundos machucam tanto, por representarem um chamado de uma mudança de tempos remotos e longínquos que podem até habitar o esquecido de nossas mentes, mas jamais de nosso comportamento. Entretanto, temer o sofrer é temer inclusive boas mudanças, e aí, não há muito que reclamar (nesse caso é se vitimizar mesmo).

Wednesday, July 3, 2013

Quereres

Quando mais novo, ouvia uma repetida frase da minha mãe e da minha avó que era "meu filho, a gente quer quem quer a gente..." E por anos, essa frase me perseguiu.

Perseguição essa que se dava claramente pelo entendimento que se tem dessa frase, contra o comportamento expressado que muitos de nós vivemos.

Entenda, essa frase voltou à minha mente em uma recente discussão sobre "conquistas". Alegavam para mim, que quando queremos algo "difícil" temos que ser insistentes, para haver essa conquista.

Discordei o quanto pude e ainda discordo. Para mim, as coisas precisam ter um certo fluxo, como quando você começa um estudo e desse estudo milhões de ideias brotam e você tem memórias variadas de coisas associadas àquilo e assim por diante. Ou como quando você começa um projeto, que mesmo atrasado, parece que tudo flui tão bem, tão conexo, que não tem "problemas" enormes. Mas na verdade, lá no fundo, tem problemas, mas eles parecem tão fúteis ou solucionáveis, que não se tornam impeditivos. Parece que de certa forma aquilo/aquele te escolheu. Ou que de certa forma, houve uma paixão por aquilo e esta tendo correspondência.

Relacionamentos também deveriam ser assim. Mas ainda insistimos em "conquistar" o outro. Compreenda, para mim, a conquista é algo inerente ou facilitado, quando aquilo é também tomado por uma paixão a nós. Que fique claro, não estou tirando o mérito de um super atleta, que se dedica de corpo e alma a uma modalidade esportiva qualquer, até porque, para ele, deve ser a mesma coisa. Há uma paixão por aquele esporte que de alguma forma é correspondida.

Mas, voltando às relações, realmente acredito que elas acontecem. Quando há abertura em cada pessoa, para assumir o impacto emocional que cada um sofre. Também existe o revelar dos sentimentos, e, no final, existe a conquista. Pode haver empecilhos, mas de alguma forma, eles se tornam facilmente contornáveis.

Muitos ainda dizem que a relação tem que começar difícil para cada um valorizar a "conquista" e também para dar valor a quem esta se conquistando. Sejamos práticos aqui, se alguém sofre uma tremenda insistência de outro alguém para estarem juntos, essa pessoa pode simplesmente não perceber o tremendo esforço que há, daquele que clama (afinal pessoas apaixonadas perdem a dinâmica de força feita) e não dar um valor tão assim ou, pior ainda, aceitar entrar nisso pelo cansaço... Ainda acredito que essa relação tenda a uma não "diversão conjunta", talvez tão almejada. Apesar disso, concordo que muitos não dão valor quando as coisas vêm fácil. Mas se não der, não entra no esquema da conquista. A conquista em si tem a valorização daquele que mexe, não pelo tempo que mexe, mas pela forma. E também por isso, não há conquista falsa. Afinal, ela não perdura.

Sim, parece difícil de perceber quando há uma conquista, por ela não poder ser facilmente colocada em uma relação de 4 meses ou algo assim, seja com um estudo, com uma pessoa, por um projeto. Quando há conquista, há tempo, há abertura, há entendimento e há, talvez, o mais difícil, aceitação. E aqui, entra a grande citação da sabedoria de minha avó. A gente realmente só quer, ou só deveria querer, quem (ou aquilo) que nos quer. Tem haver uma reciprocidade. Querer quem não nos quer é igual a nadar contra a correnteza. Pode parecer um grande feito ao final, mas pode ser um afogamento virtuoso. Querer quem quer a gente sem o nosso querer, pode parecer fácil demais, mas se torna maçante e sem tempero. Por isso, aprendamos aceitação, aprendamos reciprocidade. Quem sabe assim, quebraremos esses velhos padrões de que a vida tem que ser "conquistada" e assim a conquistaremos, de fato.

Sunday, June 23, 2013

Perdendo o controle

Ainda temos muitos problemas com apego e relações de continuidade e curiosamente isso se constrói em muito do nossos medos. Aprendemos em vida a dificuldade de conquistar e controlar as coisas, mas deixamos de lado a realidade de que nem tudo precisa ser continuamente conquistado e que experiências de abdicar, perder, deixar e esquecer nos ajudam e muito. Temos uma incrível capacidade de perder o sentido ou de nos tornarmos totalmente fanáticos a alguns pensamentos ou ideias por acreditarmos que precisamos controlar. Infelizmente, vivemos numa certeza tão grande de alguns controles que certamente podemos definir isso como um pseudocontrole. Vivemos na condição de que sempre sabemos o que é melhor para o nosso caminho, da forma como esse caminho deve ser trilhado e como os outros provavelmente agirão, mas esquecemos que muitas das coisas que conseguimos e/ou conquistamos vieram até nós dentro da estrutura do “acaso” e que, na realidade, adicionando mais questionamentos sobre essa condição toda que possuímos, caimos num abismo mais profundo de uma realidade menos distante de nós (menos distante, por estarmos vivenciando ela diariamente, mas que está tão profundamente dentro do nosso condicionamento que está no nosso abismo pessoal).

Ninguém sabe exatamente como viver, porque viver ou quais as formas, “x”, “z” ou “y”. Qual delas seria a mais tranquila, a melhor escolha ou a mais assertiva ao nosso desejo ou quiçá à nossa transformação pessoal. Aprendemos a lidar conosco, mal e porcamente, e com outros ao nosso redor de forma menos acessível ainda, aprendemos a percebermos como sentimentos/impulsos funcionam e rezamos para que não caiamos em armadilhas que anteriormente se tornaram prisões e salas de tortura por uma grande incapacidade nossa relacionada a alguém ou algo e por não compreendermos ou não aceitarmos a condição daquele processo, até aquele momento, que por mais que quiséssemos talvez fosse melhor não ter e ir regulando a nossa dinâmica de existência mediante a tudo isso. Por isso, em várias eventualidades, caímos nos fanatismos, em especial, no autofanatismo.

Quando pensamos nas várias dinâmicas de todos esses questionamentos, realizamos que a nossa capacidade de viver é ir regulando dentro dos muitos erros cometidos e quando isso acontece, percebemos que na vida existimos em erros e não em acertos. E por isso, talvez, tentar procurar uma perfeição é o que nos torne tão sedentos por controle. Tentamos loucamente controlar tudo e todos e no final de toda essa vivência, percebemos que não controlamos nada. Frustrante talvez seja uma palavra pequena para o que de fato isso é passado. Não temos controle sobre nossas compreensões nem sobre nossas interpretações. 

Muitas vezes, nossos sentimentos nos traem, nossos medos nos dominam e nossas teimosias nos jogam de volta para o mar de incertezas que um dia passamos e juramos a nós mesmos não retornar. Repetimos padrões e erros que prometemos vezes e vezes não repetir e apresentamos àqueles mais íntimos esses erros, na medida em que eles possam talvez aprender de forma menos dolorida. 

O problema é que apesar de vivermos num mundo de padrões, ainda existem casos de probabilidade onde um padrão se torna o novo e se desintegra dentro do modelo. Esse por sua vez é extremamente necessário para renovação ou quem sabe para o novo. Por isso, que quando familiares ou amigXs, conversam e apresentam um problema, que por muitos já foi vivido, existe muito uma tendência de, quando solicitados, ajudarmos com aquilo que podemos, sabemos ou já tenhamos vivido. Nisso geramos um laço do não abdicar e do não querer deixar que eles passem pela dor de um erro ou de uma ilusão por nós vivenciada. Trazemos o afeto de um jeito egoísta por temermos ver aquele que tanto amamos com a dor de algo que poderia, aos nossos olhos, ser evitado ou abandonado, mas esquecemos que quando nós fomos no caminho contrário ao senso comum de familiares, tivemos nossa medida de experiência e até de realidade não digesta. Aprendemos e nos tornamos maduros e experientes com tudo isso.

Por isso, ver pais brigando com seus filhos para que eles façam algo, que sob seu olhar é o certo, tentando ter controle das ações e pensamentos e criando o que deveria ser o modelo de uma boa vida, mesmo que aos olhos do filho o semblante seja o da extrema tristeza pelo que foi feito, orgulho apenas com o construído e pouco aproveitado patrimônio ou do medo ou da incapacidade pelo que aquele sofrido ser passou, nos torne tão distantes de algumas coisas nossas. Como filho, vivenciei com tristeza e raiva em vários momentos e situações, o “controle” que minha mãe queria ter sobre mim e minhas decisões. Sei que se ela classificasse isso como “por amor”, talvez aceitasse a “desculpa”. Entretanto, claramente via como o “medo” do meu sofrimento e em vários momentos do sofrimento dela. Saber que o medo foi dominante e que por vezes caí nesse padrão, até por ser o meu modelo de aprendizado, hoje torna até mais tranquilo quando peço auxilio a ela. 

Por ter, agora, a clareza que somos seres diferentes, aproveito da sua sabedoria para melhor embasar a minha decisão, correndo ou não os riscos, mas sabendo que seja qual for a minha decisão, mesmo que eu ouça “eu avisei você”, fiz por precisar ver/sentir/viver algo que estava, talvez preso, em mim, e que seja qual for o resultado, triste ou feliz, ganharei o suporte necessário para manter, seja qual for, a continuidade.