Quando tinha 13 anos, possuía alguns amigos bem próximos, daqueles que nunca se separam e que (quase) todo mundo já teve.
Um dia, sem aviso prévio, um deles comentou algo que ficaria marcado para sempre na minha vida:
"Se algum dia perdermos contato e nos encontrarmos depois de alguns anos, vamos nos tratar como desconhecidos?"
Prontamente respondi que não. Afinal, como amigos de tão longa data iriam perder e contato? E mesmo que o fizessem, por qual motivo haviam de se tratar como estranhos?
Concordamos e o assunto foi encerrado.
Alguns anos calejados vieram, a faculdade, o trabalho, as responsabilidades da vida adulta não mais esperavam ser consideradas para trotarem vida adentro e, com isso, experiências de relacionamentos diversos e outros ficando no caminho. Inclusive o desse amigo.
A análise crua de um relacionamento mostra que ele nada mais é do que um alinhamento de expectativas entre duas ou mais pessoas, que caminham juntas para atingir um objetivo comum, por menos claro que este seja.
Alguns sabem identificar este objetivo e tem mais facilidade para lidar com ele ou até moldá-lo. Outros, parecem escravos deste.
No primeiro sinal de desencontro, instaura-se o caos e o relacionamento desmorona para o sentido inverso, como que numa tentativa de compensar o investimento já realizado na outra pessoa.
Esse é um mecanismo de defesa muito comum que busca um fim nobre: nos manter sãos e alinhados à nossas expectativas iniciais, além de tentar justificar as "perdas" decorrentes da especulação mal sucedida.
Estamos acostumados com o controle. Viciados, apoderados dele e por ele. Qualquer mudança brusca que fuja desse padrão nos faz procurar de forma cega e desesperada por algum engaste, de modo a retomar as rédeas imaginárias de nossa vida. Isso, porém causa a sensação inebriante de que temos responsabilidade por todos os fatos acontecidos durante a nossa jornada, sendo eles, na verdade, causas ou consequências de uma infinidade de fatores influentes.
A compreensão dessa realidade nos liberta dos grilhões da culpa (ou ao menos da associação obsessiva à ela) e nos possibilita tratar de forma mais saudável as escolhas e decorrências destas, selecionando o peso que cada um destes fatores terá no julgamento de nossas próximas ações.
Assim sendo, a divergência nas expectativas de qualquer relacionamento pode ser tratada de forma mais saudável, sem a necessidade de demonização dos demais envolvidos ou de si mesmo, compreendendo que todos ali representam o mesmo papel e estão sujeitos à influência de cargas emocionais trazidas de cada experiência pessoal vivida, cabendo a responsabilidade individual de tratá-las de acordo com sua maturidade.
O sucesso está presente em cada investimento, mesmo que comumente disfarçado de falha.
E o amigo? Nos encontramos muitos anos depois e absolutamente nada mudou. (:
Monday, May 13, 2013
Relações x Expectativas
Thursday, April 18, 2013
Pena
Pratico yoga há cerca de 5 anos e desde então varias coisas em minha vida mudaram.
Todas essas mudanças aconteceram no meu psicológico. Aprendi a respeitar mais o tempo de algumas coisas, aprendi a julgar menos, observar mais e me qualificar melhor dentro de um espaço pessoal. Aprendi a ver que muitas dificuldades que eu tinha eram apenas padrões em grande estado de repetição e várias outras coisas que talvez não faça muito sentido escrever agora.
Por todos os anos de prática, eu sempre ouvi a seguinte frase "pratique e pare de ter pena de si". Por algum motivo achava essa frase extremamente agressiva e havia um bom incomodo junto de mim por todas as vezes que a ouvi. Curiosamente, ouví-la era como quando sentado torto, alguém vira para e fala "senta direito". Nesse momento existe uma forte tendência a tentar dar o máximo de si para sentar de forma correta, mesmo que não se saiba ao certo fazer isso. Mas a frase dita repercutia em minha mente para procurar o porquê do incomodo que tanto me abalava. Com o tempo, aprendendo a ver que meu limite máximo era meu medo ou minha teimosia, comecei a me dar mais crédito para acessar algumas coisas e uma delas foi uma parte do incomodo mencionado. O incomodo era por eu ter sim, uma boa dose de pena de mim. Afinal, como alguém como eu poderia ser merecedor de algo? Ou pior, por que eu fazia tanta questão de ser merecedor? Por que achava que o que construía não tinha valor? Não tinha nada de físico para comprovar que eu tivesse algum valor dado ao que era considerado assim. E por que queria tanto ter algum valor? Por que insistir em algo que vai ser finito?
Todas essas mudanças aconteceram no meu psicológico. Aprendi a respeitar mais o tempo de algumas coisas, aprendi a julgar menos, observar mais e me qualificar melhor dentro de um espaço pessoal. Aprendi a ver que muitas dificuldades que eu tinha eram apenas padrões em grande estado de repetição e várias outras coisas que talvez não faça muito sentido escrever agora.
Por todos os anos de prática, eu sempre ouvi a seguinte frase "pratique e pare de ter pena de si". Por algum motivo achava essa frase extremamente agressiva e havia um bom incomodo junto de mim por todas as vezes que a ouvi. Curiosamente, ouví-la era como quando sentado torto, alguém vira para e fala "senta direito". Nesse momento existe uma forte tendência a tentar dar o máximo de si para sentar de forma correta, mesmo que não se saiba ao certo fazer isso. Mas a frase dita repercutia em minha mente para procurar o porquê do incomodo que tanto me abalava. Com o tempo, aprendendo a ver que meu limite máximo era meu medo ou minha teimosia, comecei a me dar mais crédito para acessar algumas coisas e uma delas foi uma parte do incomodo mencionado. O incomodo era por eu ter sim, uma boa dose de pena de mim. Afinal, como alguém como eu poderia ser merecedor de algo? Ou pior, por que eu fazia tanta questão de ser merecedor? Por que achava que o que construía não tinha valor? Não tinha nada de físico para comprovar que eu tivesse algum valor dado ao que era considerado assim. E por que queria tanto ter algum valor? Por que insistir em algo que vai ser finito?
Assim, claramente eu tinha dúvidas contínuas, que deixavam claro a minha insegurança e a minha pena de mim mesmo. Entretanto, na hora de praticar, diariamente estava eu sobre o meu tapetinho, procurando respostas que pareciam completamente inacessíveis. Infelizmente, eu acessava as dúvidas, mas não saia muito disso.
Em 2012, depois de enfrentar alguns problemas, que foram tratados de forma prolongada, eu fui acometido por uma pneumonia que me impossibilitou de muitas coisas. Dentre elas, de mim mesmo. Por mais filosófico que isso pareça, aquele órgão que eu tinha trabalhado com tanto fervor e consciência, havia me deixado de lado, ou ao menos, eu me sentia assim. Por mais que procurasse ver os vários ângulos, não concebia uma pessoa que dedicou a vida a se cuidar e que caiu na malha da desgraça. Ler isso te mostra claramente que eu estava sendo vítima de mim. Tendo tanta pena que eu sofria por ser aquele que simplesmente caíra. Como os problemas continuaram com o seu prolongado sistema, perdi muita coisa. Tudo o que tinha de material acumulado tolamente foi perdido. Restaram apenas família, alguns amigos, que sempre me ajudaram muito, e o yoga. Apesar de tudo, a minha identidade, como alguém livre de várias coisas, havia se quebrado e por não me reconhecer com nada, parte se mim desejava uma única coisa, morrer. Por mais complicado que isso fosse e por mais dolorido que parecesse, tudo isso foi o melhor que me aconteceu. Aprendi a rever conceitos que considerava que estavam meio errôneos, como por exemplo, viajar e ir a show com amigos, dentre algumas várias outras coisas. Válido? Mais que isso, transformador. Sentia que desde o momento que havia saído do hospital, eu tinha deixado algo completamente certo de um monte de várias dores e saia alguém que compreendia que as coisas poderiam ser mais plenas.
Tal plenitude me trouxe amigos mais parecidos comigo, revelou máscaras que precisavam beijar o chão (minhas e de outros), revelou que eu precisava usufruir de algumas coisas a muito ensinadas verbalmente, mas que não tinham exemplos claros ou convictos. E que assim eu faria os meus próprios exemplos. Eu me tornaria, no meu máximo, com meus erros, aquilo que eu sentia que deveria me tornar. Mas havia ainda algumas coisas fora de ordem. O yoga ficou intermitente pela recuperação e meu corpo e eu começamos a nos estranhar. Estranhamento esse que me levou a um dia de fúria comigo mesmo. Percebi que ainda estava na minha pena. Claramente, tinha me transformado em muito, mas ainda estava com pena daquele que usou toda a sua capacidade para se isolar, relacionar-se com o mínimo no máximo. E se deixar levar. Se perder e achar que não tinha mais retorno, não que todo o processo fosse esse, mas havia muito disso ali colocado. A grande pergunta foi feita. "Por que ainda sinto pena de mim?" Entendimento não era algo que me faltasse, saber ouvir os outros também não era um problema. Então, onde estava incompleto?
Resolvi, numa segunda, retornar do jeito que fosse para meu corpo. Se ele tinha causado tanta irritação, ele quem me desse a resposta. Voltei a praticar com regularidade o meu yoga, tentando ao menos fazer 10 minutos de uma prática que anteriormente durava 2h30. Seja como for, o retorno parece sempre mais complicado que o primeiro passo. Após uma semana, cheio de ideias e planejamentos, percebi que muitas ideias vinham de uma continua dose de medo de não fazer. De saber que dali nada sairia. Vi amigos próximos realizarem algo que era parte da minha imagem, ainda antiga, mas boa, que precisava ser retornada a mim. Afinal, eu estava num estado deplorável. Resolvi ver fotos antigas de momentos que considerava importantes. Cheguei a perceber que sempre tive o mesmo problema em vida, eu sempre me sentia num estado deplorável.
Completamente consciente a isso, resolvi que faria diferente, para não cair na velha premissa de Einstein, precisava fazer diferente. Mesmo que minha sinusite aparentemente não deixasse. Tentaria algo novo. Assim, sempre que eu olhasse para dentro e sentisse que estava com pena de mim, faria algo para sair do estado que me encontrava.
Desde então, sinto duas coisas. A vida vale sentir pena de si, para permitir ver que você pode aprimorar e melhorar. A pena não é ruim, o que você faz com essa pena é que pode ser completamente autodestrutiva (assim como raiva ou qualquer outro sentimento que paralise os pensamentos em troca de algo que não seja seu).
A segunda coisa é que fica mais fácil agir em prol de si enquanto você sabe o que acontece. Por isso, buscar o conhecimento de cada emoção e de cada momento para entender isso. Lembrar-se que nossos defeitos existem e que por eles temos uma tendência a termos pena ou raiva de nós e saber que no mundo eles serão colocados na boca de outros vezes e vezes, queridos ou não. Isso mostra que o sentimento em si pode habitar a cada passo e talvez, só sejamos capazes de nos ver se aprendermos a respeitar algumas coisas claramente em nós. Assim valha, talvez, saber usar bem a afirmativa "Para de ter pena de si" sabendo quando tem pena de si.
Tal plenitude me trouxe amigos mais parecidos comigo, revelou máscaras que precisavam beijar o chão (minhas e de outros), revelou que eu precisava usufruir de algumas coisas a muito ensinadas verbalmente, mas que não tinham exemplos claros ou convictos. E que assim eu faria os meus próprios exemplos. Eu me tornaria, no meu máximo, com meus erros, aquilo que eu sentia que deveria me tornar. Mas havia ainda algumas coisas fora de ordem. O yoga ficou intermitente pela recuperação e meu corpo e eu começamos a nos estranhar. Estranhamento esse que me levou a um dia de fúria comigo mesmo. Percebi que ainda estava na minha pena. Claramente, tinha me transformado em muito, mas ainda estava com pena daquele que usou toda a sua capacidade para se isolar, relacionar-se com o mínimo no máximo. E se deixar levar. Se perder e achar que não tinha mais retorno, não que todo o processo fosse esse, mas havia muito disso ali colocado. A grande pergunta foi feita. "Por que ainda sinto pena de mim?" Entendimento não era algo que me faltasse, saber ouvir os outros também não era um problema. Então, onde estava incompleto?
Resolvi, numa segunda, retornar do jeito que fosse para meu corpo. Se ele tinha causado tanta irritação, ele quem me desse a resposta. Voltei a praticar com regularidade o meu yoga, tentando ao menos fazer 10 minutos de uma prática que anteriormente durava 2h30. Seja como for, o retorno parece sempre mais complicado que o primeiro passo. Após uma semana, cheio de ideias e planejamentos, percebi que muitas ideias vinham de uma continua dose de medo de não fazer. De saber que dali nada sairia. Vi amigos próximos realizarem algo que era parte da minha imagem, ainda antiga, mas boa, que precisava ser retornada a mim. Afinal, eu estava num estado deplorável. Resolvi ver fotos antigas de momentos que considerava importantes. Cheguei a perceber que sempre tive o mesmo problema em vida, eu sempre me sentia num estado deplorável.
Completamente consciente a isso, resolvi que faria diferente, para não cair na velha premissa de Einstein, precisava fazer diferente. Mesmo que minha sinusite aparentemente não deixasse. Tentaria algo novo. Assim, sempre que eu olhasse para dentro e sentisse que estava com pena de mim, faria algo para sair do estado que me encontrava.
Desde então, sinto duas coisas. A vida vale sentir pena de si, para permitir ver que você pode aprimorar e melhorar. A pena não é ruim, o que você faz com essa pena é que pode ser completamente autodestrutiva (assim como raiva ou qualquer outro sentimento que paralise os pensamentos em troca de algo que não seja seu).
A segunda coisa é que fica mais fácil agir em prol de si enquanto você sabe o que acontece. Por isso, buscar o conhecimento de cada emoção e de cada momento para entender isso. Lembrar-se que nossos defeitos existem e que por eles temos uma tendência a termos pena ou raiva de nós e saber que no mundo eles serão colocados na boca de outros vezes e vezes, queridos ou não. Isso mostra que o sentimento em si pode habitar a cada passo e talvez, só sejamos capazes de nos ver se aprendermos a respeitar algumas coisas claramente em nós. Assim valha, talvez, saber usar bem a afirmativa "Para de ter pena de si" sabendo quando tem pena de si.
Tuesday, March 12, 2013
Aprovando-se
Das relações mais importantes levadas em vida, a relação com aqueles que nos criam é das mais importantes. Dela temos os principais e primais aprendizados além de alguns vários processos conjuntos (posso citar o "édipo" aqui para facilitar). Entretanto, mesmo com construções assim, ainda nos perdemos nelas. Perceba, crianças não são vasos vazios para enchermos com a nossa pura e simples percepção. Elas já tem um conteúdo em desenvolvimento continuo que se soma a traços de personalidades e aprendizados dos seus tutores e isso é onde em grande parte geram as confusões. Muitas vezes essas "confusões" ganham o título de trauma e assim sendo, uma ferida carregada a vida a fora. Podemos citar a não aceitação da criança, que gera, de forma muito comum, adolescentes que se movimentam contra algo desconsiderando os famosos problemas de conflitos de geração onde todo adolescente é visto como um rebelde sem causa. Se pararmos para observar criteriosamente aquilo que está passando ou parece passar, os jovens ali colocados pedem de forma taxativa aprovação e aceitação daqueles que o tutoraram. Não é muito difícil ver esse padrão, caminhar pela infância, atravessar a adolescência e chegar até nós, já no mundo adulto.
A estrutura da aprovação, é algo que vai do provável ao improvável numa facilidade tão grande quanto a imaginação humana seja capaz, em processos grandiosos ou simples processos diários. Temos pessoas que veem em seus pais, pessoas para quem precisam competir contra ou em relação a algo, num pedido duradouro de aprovação onde ser melhor que os pais o coloca, mesmo que de forma alienada, num lugar onde é capaz de perceber-se como parte da família, ou ainda por cima, que sendo "o vitorioso" este estaria com a sua aprovação enfiada "goela a baixo". Poderíamos ver processos em contínuas relações afetivas, onde a pessoa se relaciona com aquele (arquétipo onde o édipo vai ser maior) de quem sente mais falta ou sente que a aprovação seria uma profunda "salvação". Há também a aprovação dada a distancia, como um pedido desesperado de reestruturar um rumo na vida. Pessoas que saem de casa e se dizem estruturalmente TOTALMENTE distantes e diferentes de seus pais, mas que muitas vezes acessam só um arquétipo oposto não tento tanta diferenciação assim. (Que fique claro, o oposto pode ser realmente muito diferente, mas é uma mesma energia sendo colocada em outra direção de vetor. Um exemplo disso são pais sufocantes que criam uma criança que se torna totalmente desapegada, numa clara visão onde o equilíbrio é a melhor opção, é a mesma "energia" sendo exacerbada a uma direção vetorial oposta). O problema é quando essa aceitação começa a movimentar e reger de formas mais pesadas a vida. Nisso confundimos a aprovação com vários outros sentimentos (necessidade de respeito, de afeto, de compreensão, de concordância ) e não sendo para menos, aprovação dos tutores, por vezes, é algo extremamente complicado de aceitar. Queremos que essa aceitação seja dada de forma escolhida por nós e, às vezes, ela já foi acessada e dada, mas como não veio na embalagem desejada, nos perdemos em confusão pelo todo disso. Um clássico exemplo desse pedido de aprovação é quando levamos nossas(os) namoradas(os) para conhecer nossos pais. Geralmente, sempre tem a pergunta "e aí? o que você achou?"
Quando as escolhas passam por um velho necessário "isso vai ser bom" disfarçado num pedido de qualquer coisa que se aproxime disso, caímos no padrão do vício e isso pode levar a questões tão profundas e doentias quanto qualquer comportamento levado a seus excessos. E para tal saída, resta-nos a percepção de que estamos trilhando algo cíclico que de alguma forma está nos deixando e nos levando sempre na direção da conexão com os que nos criaram.
Assim como em boa parte das relações de construção cíclica, essa relação de pedido de aprovação constante (isso é extremamente profundo e realista, para cada um de nós em cada dinâmica possível a nós mesmos, basta sermos realistas) começa a se perder quando aprendemos a lidar conosco e com a questão de que mesmo com uma clara "reprovação" daquilo que fizemos, o nosso espaço tem que estar em paz. É extremamente complicado viver pedindo aprovação de alguém que não é capaz de aprovar algo que não compreende. Um exemplo disso é a relação de filhos que começam a trabalhar com vínculos de trabalho home-office e ficam em casa trabalhando via internet e para seus pais alegam que aquela "brincadeira" de alguma forma, traz o dinheiro. Pode parecer bobo e até não veiculado, mas já tive amigos próximos que entraram em depressão por situações assim. Afinal, ele sempre teve o pai como modelo mor e esse não compreendia o que ele fazia e assim não o aprovava. A solução veio quando ele viu que não precisava realmente daquela aprovação ou poderia trabalhar com isso. Então, procurou explicar para o pai, sem qualquer sucesso. Decidiu que não iria buscar saber do pai o que ele achava sobre as coisas do trabalho, visto que ele jamais o perguntara sobre o trabalho. Para o meu amigo, a necessidade partia dele. Assim, se ele quebrasse o ciclo, sairia da demanda por aprovação e assim, pararia de cair no ciclo. Ele foi capaz de encarar, algo que poucos percebem, com ou sem a aprovação, que a relação profissional será a mesma, a forma de seu pai tratar-lhe seria igual e por ele perder a necessidade de compartilhar com o pai (sendo este o pedido de aprovação), a relação com seu pai tornou-se mais sadia.
Mesmo com tudo isso, ainda temos uma demanda grande por aprovação, que começa desde cedo, mas que pode ser interrompida à medida que aprendemos a lidar com essa situação. Compreender o porquê de querermos a aprovação, de querermos nos sentir aceitos e de precisarmos disso, faz com que consigamos, ao máximo, agir em prol de nossa própria aceitação de tudo aquilo que é feito por nós, reduzindo os vínculos de parar de pedir aprovações externas e aprender a lidar conosco de maneira mais plena.
A estrutura da aprovação, é algo que vai do provável ao improvável numa facilidade tão grande quanto a imaginação humana seja capaz, em processos grandiosos ou simples processos diários. Temos pessoas que veem em seus pais, pessoas para quem precisam competir contra ou em relação a algo, num pedido duradouro de aprovação onde ser melhor que os pais o coloca, mesmo que de forma alienada, num lugar onde é capaz de perceber-se como parte da família, ou ainda por cima, que sendo "o vitorioso" este estaria com a sua aprovação enfiada "goela a baixo". Poderíamos ver processos em contínuas relações afetivas, onde a pessoa se relaciona com aquele (arquétipo onde o édipo vai ser maior) de quem sente mais falta ou sente que a aprovação seria uma profunda "salvação". Há também a aprovação dada a distancia, como um pedido desesperado de reestruturar um rumo na vida. Pessoas que saem de casa e se dizem estruturalmente TOTALMENTE distantes e diferentes de seus pais, mas que muitas vezes acessam só um arquétipo oposto não tento tanta diferenciação assim. (Que fique claro, o oposto pode ser realmente muito diferente, mas é uma mesma energia sendo colocada em outra direção de vetor. Um exemplo disso são pais sufocantes que criam uma criança que se torna totalmente desapegada, numa clara visão onde o equilíbrio é a melhor opção, é a mesma "energia" sendo exacerbada a uma direção vetorial oposta). O problema é quando essa aceitação começa a movimentar e reger de formas mais pesadas a vida. Nisso confundimos a aprovação com vários outros sentimentos (necessidade de respeito, de afeto, de compreensão, de concordância ) e não sendo para menos, aprovação dos tutores, por vezes, é algo extremamente complicado de aceitar. Queremos que essa aceitação seja dada de forma escolhida por nós e, às vezes, ela já foi acessada e dada, mas como não veio na embalagem desejada, nos perdemos em confusão pelo todo disso. Um clássico exemplo desse pedido de aprovação é quando levamos nossas(os) namoradas(os) para conhecer nossos pais. Geralmente, sempre tem a pergunta "e aí? o que você achou?"
Quando as escolhas passam por um velho necessário "isso vai ser bom" disfarçado num pedido de qualquer coisa que se aproxime disso, caímos no padrão do vício e isso pode levar a questões tão profundas e doentias quanto qualquer comportamento levado a seus excessos. E para tal saída, resta-nos a percepção de que estamos trilhando algo cíclico que de alguma forma está nos deixando e nos levando sempre na direção da conexão com os que nos criaram.
Assim como em boa parte das relações de construção cíclica, essa relação de pedido de aprovação constante (isso é extremamente profundo e realista, para cada um de nós em cada dinâmica possível a nós mesmos, basta sermos realistas) começa a se perder quando aprendemos a lidar conosco e com a questão de que mesmo com uma clara "reprovação" daquilo que fizemos, o nosso espaço tem que estar em paz. É extremamente complicado viver pedindo aprovação de alguém que não é capaz de aprovar algo que não compreende. Um exemplo disso é a relação de filhos que começam a trabalhar com vínculos de trabalho home-office e ficam em casa trabalhando via internet e para seus pais alegam que aquela "brincadeira" de alguma forma, traz o dinheiro. Pode parecer bobo e até não veiculado, mas já tive amigos próximos que entraram em depressão por situações assim. Afinal, ele sempre teve o pai como modelo mor e esse não compreendia o que ele fazia e assim não o aprovava. A solução veio quando ele viu que não precisava realmente daquela aprovação ou poderia trabalhar com isso. Então, procurou explicar para o pai, sem qualquer sucesso. Decidiu que não iria buscar saber do pai o que ele achava sobre as coisas do trabalho, visto que ele jamais o perguntara sobre o trabalho. Para o meu amigo, a necessidade partia dele. Assim, se ele quebrasse o ciclo, sairia da demanda por aprovação e assim, pararia de cair no ciclo. Ele foi capaz de encarar, algo que poucos percebem, com ou sem a aprovação, que a relação profissional será a mesma, a forma de seu pai tratar-lhe seria igual e por ele perder a necessidade de compartilhar com o pai (sendo este o pedido de aprovação), a relação com seu pai tornou-se mais sadia.
Mesmo com tudo isso, ainda temos uma demanda grande por aprovação, que começa desde cedo, mas que pode ser interrompida à medida que aprendemos a lidar com essa situação. Compreender o porquê de querermos a aprovação, de querermos nos sentir aceitos e de precisarmos disso, faz com que consigamos, ao máximo, agir em prol de nossa própria aceitação de tudo aquilo que é feito por nós, reduzindo os vínculos de parar de pedir aprovações externas e aprender a lidar conosco de maneira mais plena.
Tuesday, March 5, 2013
Viciados
Umas das mais impressionantes coisas nas pessoas, para mim, é que nós somos extremamente capazes de escolher a forma e o que nos aflige, mas insistimos em permanecer cegos a isso.
Existe uma tendência em nós, em sofrer por algo na mesma intensidade que lhes damos importância. Uma forma de observar isso são pessoas que possuem algum vício de "fácil leitura", como por exemplo, fumar. Quando a pessoa está ansiosa, ela tende a fumar mais que o normal, ou quando a associação dela em relação ao fumo está em crise (a pessoa fuma em aspectos sociais e está naquele momento se sentindo socialmente deslocada), existe uma tendência de aumento do vício, pois o "sofrer" em relação a esta associação se colocou em crise. Se ela aprendesse claramente sobre o vício, olhar para ele e entender o porque de fumar, provavelmente isso ficaria mais fácil de desassociar o vício de si (apesar do exemplo, ele tem um porém, substâncias químicas afetam MUITO mais intensamente, por mexerem numa função que vai além do só psicológico, mas ainda passa muito pelo psicológico). Entretanto, quando colocamos de forma mais subjetiva, ou vícios menos aparentes, nos deparamos com uma tendência à vitimização que por muitas vezes passa o patético (que fique claro, mesmo passando o patético, todos, absolutamente todos, tendemos a isso).
Muitos de nós, ainda na infância, aprendemos a receber um certo tipo de estímulo a algumas coisas, seja um estimulo por sermos bons em matemática (e isso pode movimentar muita coisa futura em nós) ou por termos sido legais com aquela tia-velha-beijoqueira-que-insiste-em-arrancar-as-suas-bochechas, que ninguém o fazia e ela, por tal movimento, nos dá aquele mega presente de aniversário que nem nossos pais pensaram em dar. O problema disso é que quando saímos da cúpula familiar, isso começa a afetar em vários estágios e boa parte de nós não percebe que esses estímulos tendem a criam um vício, e que este, assim como vários outros, além de não ser uma opção, não é perceptível como vício.
Afinal de contas, uma pessoa que desde nova decide que precisa casar, não é visto como vício ou fuga (pode existir um vício aqui que seria o vício da fuga de conquista das coisas de forma independente, ainda achamos muito saudável isso e vemos como errado quem sai para morar só e constrói a vida assim). Mas quando analisamos nas bases da minúcia, esse "precisar" é muito diferente de um "querer". Infelizmente isso nunca é muito transparente ou claro de forma que facilite a vida. Desconsiderando funções orgânicas, quando "queremos", estamos em nossa função de escolha e quando "precisamos" estamos na nossa função da "não-escolha" e quando perdemos a nossa capacidade de escolher, estamos no vício. Pode parecer meio cartesiano, ou muito extremista, mas em sua maioria, a análise é essa. Escolhemos, achando que não o estamos fazendo, e precisamos na crença de estarmos no poder de escolher.
Colocando em outras formulações imagine aquelas pessoas que pulam de relacionamento em relacionamento. De certa forma, isso pode ser o que a mantém saudável (o que claramente torna isso um vício, afinal, quando você tira a substancia de um drogado, este perde a sua saúde além do comumente esperado). Entretanto, várias pessoas assim, tendem a viver uma única relação com várias. Mesmo que o ex seja fisicamente diferente do atual ou até psicologicamente não aproximado, a pessoa vive a mesma relação, com mesmos erros e percepções. Ela não se permite, de forma alguma, dar uma "desintoxicada" e uma reavaliada antes de se colocar disponível a outras e novas opções. Por isso, pessoas que tem seus momentos e movimentos ligados a um "espaçamento" afetivo, geralmente, quando aparecem em algumas outras e novas relações, já chegam com mais energia. Todos podem representar psicologicamente, para cada ser, uma forma ou um processo. Entretanto, dentro da percepção dos fatos, existe um vício por pessoas. Que, infelizmente, não é visto como problemático, até que a pessoa se manifeste ou se conecte a algo assim.
Assim aprender a observar aqueles que verdadeiramente sintonizam conosco e talvez aprender a enxergar aquela pessoa pelo que ela é, sabendo a muito quem você é, pode ou deseja ser, movimenta construções e relações aonde mesmo não tendendo ao infinito, tendem ao não-vício, à não-doença e a amadurecimentos, inclusive a quebrar o ciclo da nossa própria dor, reduzindo nossa insegurança e nos dando conforto.
Existe uma tendência em nós, em sofrer por algo na mesma intensidade que lhes damos importância. Uma forma de observar isso são pessoas que possuem algum vício de "fácil leitura", como por exemplo, fumar. Quando a pessoa está ansiosa, ela tende a fumar mais que o normal, ou quando a associação dela em relação ao fumo está em crise (a pessoa fuma em aspectos sociais e está naquele momento se sentindo socialmente deslocada), existe uma tendência de aumento do vício, pois o "sofrer" em relação a esta associação se colocou em crise. Se ela aprendesse claramente sobre o vício, olhar para ele e entender o porque de fumar, provavelmente isso ficaria mais fácil de desassociar o vício de si (apesar do exemplo, ele tem um porém, substâncias químicas afetam MUITO mais intensamente, por mexerem numa função que vai além do só psicológico, mas ainda passa muito pelo psicológico). Entretanto, quando colocamos de forma mais subjetiva, ou vícios menos aparentes, nos deparamos com uma tendência à vitimização que por muitas vezes passa o patético (que fique claro, mesmo passando o patético, todos, absolutamente todos, tendemos a isso).
Muitos de nós, ainda na infância, aprendemos a receber um certo tipo de estímulo a algumas coisas, seja um estimulo por sermos bons em matemática (e isso pode movimentar muita coisa futura em nós) ou por termos sido legais com aquela tia-velha-beijoqueira-que-insiste-em-arrancar-as-suas-bochechas, que ninguém o fazia e ela, por tal movimento, nos dá aquele mega presente de aniversário que nem nossos pais pensaram em dar. O problema disso é que quando saímos da cúpula familiar, isso começa a afetar em vários estágios e boa parte de nós não percebe que esses estímulos tendem a criam um vício, e que este, assim como vários outros, além de não ser uma opção, não é perceptível como vício.
Afinal de contas, uma pessoa que desde nova decide que precisa casar, não é visto como vício ou fuga (pode existir um vício aqui que seria o vício da fuga de conquista das coisas de forma independente, ainda achamos muito saudável isso e vemos como errado quem sai para morar só e constrói a vida assim). Mas quando analisamos nas bases da minúcia, esse "precisar" é muito diferente de um "querer". Infelizmente isso nunca é muito transparente ou claro de forma que facilite a vida. Desconsiderando funções orgânicas, quando "queremos", estamos em nossa função de escolha e quando "precisamos" estamos na nossa função da "não-escolha" e quando perdemos a nossa capacidade de escolher, estamos no vício. Pode parecer meio cartesiano, ou muito extremista, mas em sua maioria, a análise é essa. Escolhemos, achando que não o estamos fazendo, e precisamos na crença de estarmos no poder de escolher.
Colocando em outras formulações imagine aquelas pessoas que pulam de relacionamento em relacionamento. De certa forma, isso pode ser o que a mantém saudável (o que claramente torna isso um vício, afinal, quando você tira a substancia de um drogado, este perde a sua saúde além do comumente esperado). Entretanto, várias pessoas assim, tendem a viver uma única relação com várias. Mesmo que o ex seja fisicamente diferente do atual ou até psicologicamente não aproximado, a pessoa vive a mesma relação, com mesmos erros e percepções. Ela não se permite, de forma alguma, dar uma "desintoxicada" e uma reavaliada antes de se colocar disponível a outras e novas opções. Por isso, pessoas que tem seus momentos e movimentos ligados a um "espaçamento" afetivo, geralmente, quando aparecem em algumas outras e novas relações, já chegam com mais energia. Todos podem representar psicologicamente, para cada ser, uma forma ou um processo. Entretanto, dentro da percepção dos fatos, existe um vício por pessoas. Que, infelizmente, não é visto como problemático, até que a pessoa se manifeste ou se conecte a algo assim.
Assim aprender a observar aqueles que verdadeiramente sintonizam conosco e talvez aprender a enxergar aquela pessoa pelo que ela é, sabendo a muito quem você é, pode ou deseja ser, movimenta construções e relações aonde mesmo não tendendo ao infinito, tendem ao não-vício, à não-doença e a amadurecimentos, inclusive a quebrar o ciclo da nossa própria dor, reduzindo nossa insegurança e nos dando conforto.
Wednesday, February 27, 2013
Em guerra
Diariamente, ao me levantar, me dou alguns minutos para aproveitar a preguiça. Em dias que não faço isso, me sinto seriamente deslocado da realidade. Parece que minha alma, que vagava existência a fora enquanto eu dormia, ainda não se acoplou ao corpo.
O estranho é que, ao comentar com algumas pessoas, várias ficaram horrorizadas por eu fazer isso. E, pensando mais detalhadamente sobre o assunto, só consigo ver que as pessoas não percebem que estão em guerra.
Ao invés de aprendermos na escola a melhor forma de cada um adquirir conhecimento, somos todos forçados a entrar num sistema único de ensino, onde o que se aprende não é necessariamente medido, mas serve com muita força para nos tornar competitivos. Infantes realmente pequenos já começam a proferir formas e estruturas de competitividade bem pesadas. E para piorar isso, aprendemos a competir com tudo. Competimos para saber quem são mais fortes, mais rápidos, mais bonitos e até mais ricos. Como se de alguma forma, conseguíssemos clareza nas medições. Talvez nessas, tenhamos. Mas à medida que amadurecemos, competimos com a vida, mesmo que sem querer, e entramos aonde poucos realmente se veem. Querermos saber quem é que sofre mais, quem é que ganha mais, quem é que fode mais, quem é que tem mais capacidade de trabalhar sem dormir (competimos com a NOSSA vida, ao reduzirmos drasticamente horas de sono em prol de sermos algo, não necessariamente, melhores) e exemplos jamais faltaram.
O trajeto disso, além da clara autodestruição, é a realidade de ficar numa competição tão grande, que desaprendemos coisas básicas. Como quando as pessoas perdem a clareza e competem com os amigos, quando deveriam ajudá-los, competem com os amores escolhidos e não entendem por que erram tanto e tão constantemente com situações banais. Competem com pai e mãe, pois o erro de percepção desses criam traumas que aquela criança mesmo sendo incapaz de perceber que havia uma boa intenção, não consegue perdoar. Disso, desaprendemos a entender o tempo, por também estarmos sempre competindo com ele. Nossa relação de existência se dá basicamente contra o tempo. Não aprendemos a apreciar as manhãs, comemos rápido, dizemos não ter tempo para trocar afeto, deixamos e abdicamos de pessoas importantes, por criarmos tanta coisa que não cabe naquele tempo. Olhamos para o relógio como se precisássemos correr para algum lugar competir com algo que nos matará mais cedo. Estamos nos tornando pessoas que competem tanto que qualquer carinho ou boa ação gratuita, nos comove além do normal (tanto para o bom como para o mau que há nisso, se é que há algum mau) enquanto elas deveriam ser as atitudes normais. Achamos que vamos ser traídos na competição da vida se pararmos para estender algum desconhecido que cai ou se deixamos a correria de lado para apreciar o encaixe da alma de volta ao corpo durante aquela preguiça ainda na cama ao levantar. Somos monstros devoradores de qualquer capacidade, necessitados por competitividade de um jeito tão bizarro que nos esquecemos de ser os melhores amigos, os melhores amores/amantes e os melhores filhos/parentes. Estamos perdendo a essência do que é ser humano para nos tornarmos máquinas. Estamos tão sem coração que quem chora é fraco, quem fala a sinceridade das emoções é trouxa e quem sente, de todo coração, está perdido.
Talvez precisemos de mais tempo para aprender que mesmo nessa correria merecemos calor e carinho. Merecemos um pouco de paz. Inclusive de nós.
O estranho é que, ao comentar com algumas pessoas, várias ficaram horrorizadas por eu fazer isso. E, pensando mais detalhadamente sobre o assunto, só consigo ver que as pessoas não percebem que estão em guerra.
Ao invés de aprendermos na escola a melhor forma de cada um adquirir conhecimento, somos todos forçados a entrar num sistema único de ensino, onde o que se aprende não é necessariamente medido, mas serve com muita força para nos tornar competitivos. Infantes realmente pequenos já começam a proferir formas e estruturas de competitividade bem pesadas. E para piorar isso, aprendemos a competir com tudo. Competimos para saber quem são mais fortes, mais rápidos, mais bonitos e até mais ricos. Como se de alguma forma, conseguíssemos clareza nas medições. Talvez nessas, tenhamos. Mas à medida que amadurecemos, competimos com a vida, mesmo que sem querer, e entramos aonde poucos realmente se veem. Querermos saber quem é que sofre mais, quem é que ganha mais, quem é que fode mais, quem é que tem mais capacidade de trabalhar sem dormir (competimos com a NOSSA vida, ao reduzirmos drasticamente horas de sono em prol de sermos algo, não necessariamente, melhores) e exemplos jamais faltaram.
O trajeto disso, além da clara autodestruição, é a realidade de ficar numa competição tão grande, que desaprendemos coisas básicas. Como quando as pessoas perdem a clareza e competem com os amigos, quando deveriam ajudá-los, competem com os amores escolhidos e não entendem por que erram tanto e tão constantemente com situações banais. Competem com pai e mãe, pois o erro de percepção desses criam traumas que aquela criança mesmo sendo incapaz de perceber que havia uma boa intenção, não consegue perdoar. Disso, desaprendemos a entender o tempo, por também estarmos sempre competindo com ele. Nossa relação de existência se dá basicamente contra o tempo. Não aprendemos a apreciar as manhãs, comemos rápido, dizemos não ter tempo para trocar afeto, deixamos e abdicamos de pessoas importantes, por criarmos tanta coisa que não cabe naquele tempo. Olhamos para o relógio como se precisássemos correr para algum lugar competir com algo que nos matará mais cedo. Estamos nos tornando pessoas que competem tanto que qualquer carinho ou boa ação gratuita, nos comove além do normal (tanto para o bom como para o mau que há nisso, se é que há algum mau) enquanto elas deveriam ser as atitudes normais. Achamos que vamos ser traídos na competição da vida se pararmos para estender algum desconhecido que cai ou se deixamos a correria de lado para apreciar o encaixe da alma de volta ao corpo durante aquela preguiça ainda na cama ao levantar. Somos monstros devoradores de qualquer capacidade, necessitados por competitividade de um jeito tão bizarro que nos esquecemos de ser os melhores amigos, os melhores amores/amantes e os melhores filhos/parentes. Estamos perdendo a essência do que é ser humano para nos tornarmos máquinas. Estamos tão sem coração que quem chora é fraco, quem fala a sinceridade das emoções é trouxa e quem sente, de todo coração, está perdido.
Talvez precisemos de mais tempo para aprender que mesmo nessa correria merecemos calor e carinho. Merecemos um pouco de paz. Inclusive de nós.
Monday, January 28, 2013
Ofensas
Sempre achei meio repugnante coisas do tipo "Minha educação depende da sua" ou "meu comportamento varia pelo seu." Sejamos coerentes, depender da polidez do outro para ter ética e respeito num relacionamento é quase como, num casal de namorados, um só escovar os dentes se outro escovar, a despeito da necessidade de higiene. O que, numa análise mais distante, torna-o passivo ao mundo e ainda por cima alguém reativo à realidade.
Só que essa é uma visão simplicista. Várias coisas podem ser retiradas e até melhor percebidas dessa situação. Para nós, a capacidade de ofender nunca é nossa. Somos criados de forma a perceber que quem ofende é sempre "o outro" e que somos vítimas disso. Só que não é assim. Ofendemo-nos por estruturas de não aceitação, por orgulho ferido e pela incapacidade de sermos mais acolhedores com coisas que estão em nós, ou seja, o que para nós é ofensa depende basicamente de nossa percepção, afinal, nos importamos demais com o nosso ego.
Se observarmos as ideologias de processos religiosos de qualquer um dos avatares que perambularam pela bolota azul, provavelmente ficaríamos surpresos que eles cobram atividade e força e não passividade e reatividade.
O cristãos, donos da frase "amai ao próximo como a ti mesmo", deixam muito clara a necessidade de sermos ativos enquanto somos capazes de nos amar. Que a nossa responsabilidade para com os outros vem da nossa responsabilidade para conosco e que devemos ter isso como conduta. Claramente, isso não é tão seguido. Infelizmente, vemos muito mais a reatividade de comportamento, do que a atividade de cuidar do outro como gostaríamos de ser cuidados.
A visão budista, por sua vez, é bem ilustrada no conto em que Buda, sendo severamente ofendido, é perguntado por um de seus preocupados discípulos se ele não responderia as ofensas, ao que ele responde (algo assim) : "Quando você não pode aceitar um presente, ele simplesmente não fica com você, ele retorna imediatamente a quem o presenteia". Por mais que possa parecer uma birra infantil, ele deixava claro que a atividade de movimentação se dá na direção de quem tenta ofender. Afinal, damos ao mundo e espalhamos, para aqueles que nos cercam, aquilo que estamos cheios para oferecer. Então, se aqueles que nos cercam tentam nos ofender, podemos "aceitar" o presente e devolver muito daquilo que está em nós, na mesma moeda, ou podemos procurar a tolerância e não nos ofendermos mais.
Entende o porquê de eu considerar essa "espera" até meio repugnante? É muito estranho perceber que alguém está brincando de Suíça (sempre neutro) até que o outro se mostre com uma postura desejada, ou pior, perceber que a pessoa não para e pensa que uma possível ofensa pode ser uma simples afirmativa inofensiva e age de forma totalmente reativa. A problemática toda se dá na nossa incapacidade de sempre compreender as pessoas. E, especialmente, da nossa necessidade de aprovação perante as pessoas. Julgamos muito e somos muito julgados, mas isso não quer dizer que estejamos, necessariamente, certos ou que não seja uma ação ou ideia adaptável, ao ponto de ela ter outros pontos de vista. A aprovação tem que vir de nós, sermos capazes de perceber o que somos sem ter a continua necessidade de uma visão externa. Por isso, sempre optei por fazer e dar o melhor da minha educação, independente da educação alheia. Isso evita desconfortos e crises e me ajuda inclusive a poder cobrar melhorias pessoais.
Assim, considero sempre mais sincero quem é explosivo por ser, quem é mal-educado por não ter tido qualquer criação ou limitação sobre algumas coisas a quem insiste em se manter "parado" a ser minimamente agradável logo no início de toda uma relação. Sempre melhor, para mim, dar um algo agradável, nem que seja a educação, para deixar o outro num espaço de conforto, do que qualquer coisa fria. Mas acho que ser totalmente reativo à educação alheia, por muitas vezes, coloca-nos em situações que facilmente poderiam ter sido evitadas e inclusive deixadas de lado. Afinal de contas, sair pelo mundo absorvendo a negatividade dos outros é péssimo. Se sente que seus amigos estão te fazendo mais mal do que bem, talvez seja uma boa se afastar e procurar pessoas que trilhem algo próximo a você, em especial, que te façam bem. Lembre-se: a nós é dado, sim, o poder de nos importar com algumas coisas. Aprender a ser sempre você e ignorar aqueles que em nada ajudam, mas em muito atrapalham, tornam um todo do mundo mais bonito.
Só que essa é uma visão simplicista. Várias coisas podem ser retiradas e até melhor percebidas dessa situação. Para nós, a capacidade de ofender nunca é nossa. Somos criados de forma a perceber que quem ofende é sempre "o outro" e que somos vítimas disso. Só que não é assim. Ofendemo-nos por estruturas de não aceitação, por orgulho ferido e pela incapacidade de sermos mais acolhedores com coisas que estão em nós, ou seja, o que para nós é ofensa depende basicamente de nossa percepção, afinal, nos importamos demais com o nosso ego.
Se observarmos as ideologias de processos religiosos de qualquer um dos avatares que perambularam pela bolota azul, provavelmente ficaríamos surpresos que eles cobram atividade e força e não passividade e reatividade.
O cristãos, donos da frase "amai ao próximo como a ti mesmo", deixam muito clara a necessidade de sermos ativos enquanto somos capazes de nos amar. Que a nossa responsabilidade para com os outros vem da nossa responsabilidade para conosco e que devemos ter isso como conduta. Claramente, isso não é tão seguido. Infelizmente, vemos muito mais a reatividade de comportamento, do que a atividade de cuidar do outro como gostaríamos de ser cuidados.
A visão budista, por sua vez, é bem ilustrada no conto em que Buda, sendo severamente ofendido, é perguntado por um de seus preocupados discípulos se ele não responderia as ofensas, ao que ele responde (algo assim) : "Quando você não pode aceitar um presente, ele simplesmente não fica com você, ele retorna imediatamente a quem o presenteia". Por mais que possa parecer uma birra infantil, ele deixava claro que a atividade de movimentação se dá na direção de quem tenta ofender. Afinal, damos ao mundo e espalhamos, para aqueles que nos cercam, aquilo que estamos cheios para oferecer. Então, se aqueles que nos cercam tentam nos ofender, podemos "aceitar" o presente e devolver muito daquilo que está em nós, na mesma moeda, ou podemos procurar a tolerância e não nos ofendermos mais.
Entende o porquê de eu considerar essa "espera" até meio repugnante? É muito estranho perceber que alguém está brincando de Suíça (sempre neutro) até que o outro se mostre com uma postura desejada, ou pior, perceber que a pessoa não para e pensa que uma possível ofensa pode ser uma simples afirmativa inofensiva e age de forma totalmente reativa. A problemática toda se dá na nossa incapacidade de sempre compreender as pessoas. E, especialmente, da nossa necessidade de aprovação perante as pessoas. Julgamos muito e somos muito julgados, mas isso não quer dizer que estejamos, necessariamente, certos ou que não seja uma ação ou ideia adaptável, ao ponto de ela ter outros pontos de vista. A aprovação tem que vir de nós, sermos capazes de perceber o que somos sem ter a continua necessidade de uma visão externa. Por isso, sempre optei por fazer e dar o melhor da minha educação, independente da educação alheia. Isso evita desconfortos e crises e me ajuda inclusive a poder cobrar melhorias pessoais.
Assim, considero sempre mais sincero quem é explosivo por ser, quem é mal-educado por não ter tido qualquer criação ou limitação sobre algumas coisas a quem insiste em se manter "parado" a ser minimamente agradável logo no início de toda uma relação. Sempre melhor, para mim, dar um algo agradável, nem que seja a educação, para deixar o outro num espaço de conforto, do que qualquer coisa fria. Mas acho que ser totalmente reativo à educação alheia, por muitas vezes, coloca-nos em situações que facilmente poderiam ter sido evitadas e inclusive deixadas de lado. Afinal de contas, sair pelo mundo absorvendo a negatividade dos outros é péssimo. Se sente que seus amigos estão te fazendo mais mal do que bem, talvez seja uma boa se afastar e procurar pessoas que trilhem algo próximo a você, em especial, que te façam bem. Lembre-se: a nós é dado, sim, o poder de nos importar com algumas coisas. Aprender a ser sempre você e ignorar aqueles que em nada ajudam, mas em muito atrapalham, tornam um todo do mundo mais bonito.
Thursday, January 24, 2013
Pertencer
Desde muito novo, eu me sentia diferente por eu sempre ter características de certa prematuridade que pareciam distantes dos meus amigos. Era engraçado perceber como eu sempre passava um "ar" de qualquer coisa meio sem esperança. Havia um nível de percepção meio desesperado, de certo sofrimento necessário, ainda quando criança. O mais intrigante foi encarar esse sofrimento.
Eu nunca fui uma pessoa que tinha quaisquer memórias claras sobre minha infância. Era até engraçado que muitas vezes minhas memórias eram falas de amigos da época, das irmãs ou da minha mãe, mas raramente algo meu. Há algum tempo, num momento de desespero (afinal, não recordar de praticamente nada da infância me parecia não tê-la tido), comecei a lembrar de algumas coisas. À medida que essas memórias se aproximavam, eu percebia claramente que não gostava muito de existir e não era feliz, por me sentir uma aberração ao redor de vários outros. Que fique bem claro, nunca houve qualquer pensamento suicida, apenas sentia que era meio inútil ou nada agradável estar "ali". E, com isso, havia uma clara tristeza de sentir-me meio só.
Depois de alguns anos, sentir-se diferente demais foi se tornando um múltiplo de coisas, o que acabou dificultando várias percepções. O fato de eu ter tido uma criação consideravelmente diferente (fui criado, em sua maior parte, apenas por mulheres) nunca foi fácil e contribuiu bastante para a minha condição. Embora eu tivesse um bom entendimento da não presença ou existência do meu pai, no fundo sempre houve uma dor. Não era muito tranquilo para um adolescente não ter o pai. Na minha cabeça, aquela situação era necessariamente motivo para sentir mais dor e mais tristeza. Se já havia a sensação de sentir-me só, agora ela havia se tornado solidão com um abraço de abandono.
Quanto mais se aproximava da idade adulta, mais clara essa minha condição foi percebida. E com o passar das épocas (infância, adolescência, juventude), mais forte se tornaram alguns processos.
Em relações afetivas, minhas tristezas sobressaíram para várias campos. Minhas namoradas cobravam muitas coisas que no fundo não compreendia, mas que, por ver isso como padrão (entre outras relações, mesmo não concordando em alguns casos), fazia por parecer o correto. Depois comecei a questionar meus posicionamentos e os de quem se envolvia comigo... E bem, fácil de perceber que havia um erro social/afetivo ali.
Por não me sentir igual às pessoas e por ter uma tristeza impermeável, me coloquei em muitas situações que facilmente não teria absorvido se tivesse simplesmente aceitado minha bagagem. Como diria Nietzsche, "torna-te quem tu és"! Mas preferi tentar esconder essa tristeza, tentar fazer parte de algo que não conseguia.
Essa tristeza era a minha clareza de não encontrar pares de pertencimento. Sentia um completo E.T., mesmo estando envolvido afetivamente a algumas pessoas. Pense assim, eu tinha um medo muito grande de ser diferente, esse medo gerou a tristeza que relato aqui, essa tristeza me fez ser algo que não era e assim viver uma vida que claramente não me faria bem. Era como se um leão simplesmente vivesse a vida de um lobo e não entendesse por que se sente tão triste com tudo isso.
Apesar de tudo, o curioso hoje é saber que quanto mais afasto aquela tristeza, tornando-me quem de fato sou, mais eu encontro pares, amigos que mostram claramente que eu não estou só por ser o que sou. Eles me fizeram perder o medo de não pertencer.
Sejamos simples. Basta pararmos de temer a solidão e trazermos mais à tona o que somos. Trabalhando sempre com nossa real percepção em prol de nossa constante melhora. Assim, talvez, aprendamos inclusive a ajudar aqueles que ao nosso lado estão, com a clareza e a convicção de que não é só necessário ser igual, mas que até na diferença, conseguimos estender a mão.
Eu nunca fui uma pessoa que tinha quaisquer memórias claras sobre minha infância. Era até engraçado que muitas vezes minhas memórias eram falas de amigos da época, das irmãs ou da minha mãe, mas raramente algo meu. Há algum tempo, num momento de desespero (afinal, não recordar de praticamente nada da infância me parecia não tê-la tido), comecei a lembrar de algumas coisas. À medida que essas memórias se aproximavam, eu percebia claramente que não gostava muito de existir e não era feliz, por me sentir uma aberração ao redor de vários outros. Que fique bem claro, nunca houve qualquer pensamento suicida, apenas sentia que era meio inútil ou nada agradável estar "ali". E, com isso, havia uma clara tristeza de sentir-me meio só.
Depois de alguns anos, sentir-se diferente demais foi se tornando um múltiplo de coisas, o que acabou dificultando várias percepções. O fato de eu ter tido uma criação consideravelmente diferente (fui criado, em sua maior parte, apenas por mulheres) nunca foi fácil e contribuiu bastante para a minha condição. Embora eu tivesse um bom entendimento da não presença ou existência do meu pai, no fundo sempre houve uma dor. Não era muito tranquilo para um adolescente não ter o pai. Na minha cabeça, aquela situação era necessariamente motivo para sentir mais dor e mais tristeza. Se já havia a sensação de sentir-me só, agora ela havia se tornado solidão com um abraço de abandono.
Quanto mais se aproximava da idade adulta, mais clara essa minha condição foi percebida. E com o passar das épocas (infância, adolescência, juventude), mais forte se tornaram alguns processos.
Em relações afetivas, minhas tristezas sobressaíram para várias campos. Minhas namoradas cobravam muitas coisas que no fundo não compreendia, mas que, por ver isso como padrão (entre outras relações, mesmo não concordando em alguns casos), fazia por parecer o correto. Depois comecei a questionar meus posicionamentos e os de quem se envolvia comigo... E bem, fácil de perceber que havia um erro social/afetivo ali.
Por não me sentir igual às pessoas e por ter uma tristeza impermeável, me coloquei em muitas situações que facilmente não teria absorvido se tivesse simplesmente aceitado minha bagagem. Como diria Nietzsche, "torna-te quem tu és"! Mas preferi tentar esconder essa tristeza, tentar fazer parte de algo que não conseguia.
Essa tristeza era a minha clareza de não encontrar pares de pertencimento. Sentia um completo E.T., mesmo estando envolvido afetivamente a algumas pessoas. Pense assim, eu tinha um medo muito grande de ser diferente, esse medo gerou a tristeza que relato aqui, essa tristeza me fez ser algo que não era e assim viver uma vida que claramente não me faria bem. Era como se um leão simplesmente vivesse a vida de um lobo e não entendesse por que se sente tão triste com tudo isso.
Apesar de tudo, o curioso hoje é saber que quanto mais afasto aquela tristeza, tornando-me quem de fato sou, mais eu encontro pares, amigos que mostram claramente que eu não estou só por ser o que sou. Eles me fizeram perder o medo de não pertencer.
Sejamos simples. Basta pararmos de temer a solidão e trazermos mais à tona o que somos. Trabalhando sempre com nossa real percepção em prol de nossa constante melhora. Assim, talvez, aprendamos inclusive a ajudar aqueles que ao nosso lado estão, com a clareza e a convicção de que não é só necessário ser igual, mas que até na diferença, conseguimos estender a mão.
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