Wednesday, February 27, 2013

Em guerra

Diariamente, ao me levantar, me dou alguns minutos para aproveitar a preguiça. Em dias que não faço isso, me sinto seriamente deslocado da realidade. Parece que minha alma, que vagava existência a fora enquanto eu dormia, ainda não se acoplou ao corpo.

O estranho é que, ao comentar com algumas pessoas, várias ficaram horrorizadas por eu fazer isso. E, pensando mais detalhadamente sobre o assunto, só consigo ver que as pessoas não percebem que estão em guerra.

Ao invés de aprendermos na escola a melhor forma de cada um adquirir conhecimento, somos todos forçados a entrar num sistema único de ensino, onde o que se aprende não é necessariamente medido, mas serve com muita força para nos tornar competitivos. Infantes realmente pequenos já começam a proferir formas e estruturas de competitividade bem pesadas. E para piorar isso, aprendemos a competir com tudo. Competimos para saber quem são mais fortes, mais rápidos, mais bonitos e até mais ricos. Como se de alguma forma, conseguíssemos clareza nas medições. Talvez nessas, tenhamos. Mas à medida que amadurecemos, competimos com a vida, mesmo que sem querer, e entramos aonde poucos realmente se veem. Querermos saber quem é que sofre mais, quem é que ganha mais, quem é que fode mais, quem é que tem mais capacidade de trabalhar sem dormir (competimos com a NOSSA vida, ao reduzirmos drasticamente horas de sono em prol de sermos algo, não necessariamente, melhores) e exemplos jamais faltaram.

O trajeto disso, além da clara autodestruição, é a realidade de ficar numa competição tão grande, que desaprendemos coisas básicas. Como quando as pessoas perdem a clareza e competem com os amigos, quando deveriam ajudá-los, competem com os amores escolhidos e não entendem por que erram tanto e tão constantemente com situações banais. Competem com pai e mãe, pois o erro de percepção desses criam traumas que aquela criança mesmo sendo incapaz de perceber que havia uma boa intenção, não consegue perdoar. Disso, desaprendemos a entender o tempo, por também estarmos sempre competindo com ele. Nossa relação de existência se dá basicamente contra o tempo. Não aprendemos a apreciar as manhãs, comemos rápido, dizemos não ter tempo para trocar afeto, deixamos e abdicamos de pessoas importantes, por criarmos tanta coisa que não cabe naquele tempo. Olhamos para o relógio como se precisássemos correr para algum lugar competir com algo que nos matará mais cedo. Estamos nos tornando pessoas que competem tanto que qualquer carinho ou boa ação gratuita, nos comove além do normal (tanto para o bom como para o mau que há nisso, se é que há algum mau) enquanto elas deveriam ser as atitudes normais. Achamos que vamos ser traídos na competição da vida se pararmos para estender algum desconhecido que cai ou se deixamos a correria de lado para apreciar o encaixe da alma de volta ao corpo durante aquela preguiça ainda na cama ao levantar. Somos monstros devoradores de qualquer capacidade, necessitados por competitividade de um jeito tão bizarro que nos esquecemos de ser os melhores amigos, os melhores amores/amantes e os melhores filhos/parentes. Estamos perdendo a essência do que é ser humano para nos tornarmos máquinas. Estamos tão sem coração que quem chora é fraco, quem fala a sinceridade das emoções é trouxa e quem sente, de todo coração, está perdido.

Talvez precisemos de mais tempo para aprender que mesmo nessa correria merecemos calor e carinho. Merecemos um pouco de paz. Inclusive de nós.

Monday, January 28, 2013

Ofensas

Sempre achei meio repugnante coisas do tipo "Minha educação depende da sua" ou "meu comportamento varia pelo seu." Sejamos coerentes, depender da polidez do outro para ter ética e respeito num relacionamento é quase como, num casal de namorados, um só escovar os dentes se outro escovar, a despeito da necessidade de higiene. O que, numa análise mais distante, torna-o passivo ao mundo e ainda por cima alguém reativo à realidade.

Só que essa é uma visão simplicista. Várias coisas podem ser retiradas e até melhor percebidas dessa situação. Para nós, a capacidade de ofender nunca é nossa. Somos criados de forma a perceber que quem ofende é sempre "o outro" e que somos vítimas disso. Só que não é assim. Ofendemo-nos por estruturas de não aceitação, por orgulho ferido e pela incapacidade de sermos mais acolhedores com coisas que estão em nós, ou seja, o que para nós é ofensa depende basicamente de nossa percepção, afinal, nos importamos demais com o nosso ego.

Se observarmos as ideologias de processos religiosos de qualquer um dos avatares que perambularam pela bolota azul, provavelmente ficaríamos surpresos que eles cobram atividade e força e não passividade e reatividade.

O cristãos, donos da frase "amai ao próximo como a ti mesmo", deixam muito clara a necessidade de sermos ativos enquanto somos capazes de nos amar. Que a nossa responsabilidade para com os outros vem da nossa responsabilidade para conosco e que devemos ter isso como conduta. Claramente, isso não é tão seguido. Infelizmente, vemos muito mais a reatividade de comportamento, do que a atividade de cuidar do outro como gostaríamos de ser cuidados.

A visão budista, por sua vez, é bem ilustrada no conto em que Buda, sendo severamente ofendido, é perguntado por um de seus preocupados discípulos se ele não responderia as ofensas, ao que ele responde (algo assim) : "Quando você não pode aceitar um presente, ele simplesmente não fica com você, ele retorna imediatamente a quem o presenteia". Por mais que possa parecer uma birra infantil, ele deixava claro que a atividade de movimentação se dá na direção de quem tenta ofender. Afinal, damos ao mundo e espalhamos, para aqueles que nos cercam, aquilo que estamos cheios para oferecer. Então, se aqueles que nos cercam tentam nos ofender, podemos "aceitar" o presente e devolver muito daquilo que está em nós, na mesma moeda, ou podemos procurar a tolerância e não nos ofendermos mais.

Entende o porquê de eu considerar essa "espera" até meio repugnante? É muito estranho perceber que alguém está brincando de Suíça (sempre neutro) até que o outro se mostre com uma postura desejada, ou pior, perceber que a pessoa não para e pensa que uma possível ofensa pode ser uma simples afirmativa inofensiva e age de forma totalmente reativa. A problemática toda se dá na nossa incapacidade de sempre compreender as pessoas. E, especialmente, da nossa necessidade de aprovação perante as pessoas. Julgamos muito e somos muito julgados, mas isso não quer dizer que estejamos, necessariamente, certos ou que não seja uma ação ou ideia adaptável, ao ponto de ela ter outros pontos de vista. A aprovação tem que vir de nós, sermos capazes de perceber o que somos sem ter a continua necessidade de uma visão externa. Por isso, sempre optei por fazer e dar o melhor da minha educação, independente da educação alheia. Isso evita desconfortos e crises e me ajuda inclusive a poder cobrar melhorias pessoais.

Assim, considero sempre mais sincero quem é explosivo por ser, quem é mal-educado por não ter tido qualquer criação ou limitação sobre algumas coisas a quem insiste em se manter "parado" a ser minimamente agradável logo no início de toda uma relação. Sempre melhor, para mim, dar um algo agradável, nem que seja a educação, para deixar o outro num espaço de conforto, do que qualquer coisa fria. Mas acho que ser totalmente reativo à educação alheia, por muitas vezes, coloca-nos em situações que facilmente poderiam ter sido evitadas e inclusive deixadas de lado. Afinal de contas, sair pelo mundo absorvendo a negatividade dos outros é péssimo. Se sente que seus amigos estão te fazendo mais mal do que bem, talvez seja uma boa se afastar e procurar pessoas que trilhem algo próximo a você, em especial, que te façam bem. Lembre-se: a nós é dado, sim, o poder de nos importar com algumas coisas. Aprender a ser sempre você e ignorar aqueles que em nada ajudam, mas em muito atrapalham, tornam um todo do mundo mais bonito.

Thursday, January 24, 2013

Pertencer

Desde muito novo, eu me sentia diferente por eu sempre ter características de certa prematuridade que pareciam distantes dos meus amigos. Era engraçado perceber como eu sempre passava um "ar" de qualquer coisa meio sem esperança. Havia um nível de percepção meio desesperado, de certo sofrimento necessário, ainda quando criança. O mais intrigante foi encarar esse sofrimento.

Eu nunca fui uma pessoa que tinha quaisquer memórias claras sobre minha infância. Era até engraçado que muitas vezes minhas memórias eram falas de amigos da época, das irmãs ou da minha mãe, mas raramente algo meu. Há algum tempo, num momento de desespero (afinal, não recordar de praticamente nada da infância me parecia não tê-la tido), comecei a lembrar de algumas coisas. À medida que essas memórias se aproximavam, eu percebia claramente que não gostava muito de existir e não era feliz, por me sentir uma aberração ao redor de vários outros. Que fique bem claro, nunca houve qualquer pensamento suicida, apenas sentia que era meio inútil ou nada agradável estar "ali". E, com isso, havia uma clara tristeza de sentir-me meio só.

Depois de alguns anos, sentir-se diferente demais foi se tornando um múltiplo de coisas, o que acabou dificultando várias percepções. O fato de eu ter tido uma criação consideravelmente diferente (fui criado, em sua maior parte, apenas por mulheres) nunca foi fácil e contribuiu bastante para a minha condição. Embora eu tivesse um bom entendimento da não presença ou existência do meu pai, no fundo sempre houve uma dor. Não era muito tranquilo para um adolescente não ter o pai. Na minha cabeça, aquela situação era necessariamente motivo para sentir mais dor e mais tristeza. Se já havia a sensação de sentir-me só, agora ela havia se tornado solidão com um abraço de abandono.

Quanto mais se aproximava da idade adulta, mais clara essa minha condição foi percebida. E com o passar das épocas (infância, adolescência, juventude), mais forte se tornaram alguns processos.

Em relações afetivas, minhas tristezas sobressaíram para várias campos. Minhas namoradas cobravam muitas coisas que no fundo não compreendia, mas que, por ver isso como padrão (entre outras relações, mesmo não concordando em alguns casos), fazia por parecer o correto. Depois comecei a questionar meus posicionamentos e os de quem se envolvia comigo... E bem, fácil de perceber que havia um erro social/afetivo ali.

Por não me sentir igual às pessoas e por ter uma tristeza impermeável, me coloquei em muitas situações que facilmente não teria absorvido se tivesse simplesmente aceitado minha bagagem. Como diria Nietzsche, "torna-te quem tu és"! Mas preferi tentar esconder essa tristeza, tentar fazer parte de algo que não conseguia.

Essa tristeza era a minha clareza de não encontrar pares de pertencimento. Sentia um completo E.T., mesmo estando envolvido afetivamente a algumas pessoas. Pense assim, eu tinha um medo muito grande de ser diferente, esse medo gerou a tristeza que relato aqui, essa tristeza me fez ser algo que não era e assim viver uma vida que claramente não me faria bem. Era como se um leão simplesmente vivesse a vida de um lobo e não entendesse por que se sente tão triste com tudo isso.

Apesar de tudo, o curioso hoje é saber que quanto mais afasto aquela tristeza, tornando-me quem de fato sou, mais eu encontro pares, amigos que mostram claramente que eu não estou só por ser o que sou. Eles me fizeram perder o medo de não pertencer.

Sejamos simples. Basta pararmos de temer a solidão e trazermos mais à tona o que somos. Trabalhando sempre com nossa real percepção em prol de nossa constante melhora. Assim, talvez, aprendamos inclusive a ajudar aqueles que ao nosso lado estão, com a clareza e a convicção de que não é só necessário ser igual, mas que até na diferença, conseguimos estender a mão.

Thursday, January 10, 2013

Traumas

Quando, correndo loucamente, você cai, rola (ou simplesmente cai como uma fruta madura e para) e dolorosamente percebe que quebrou o pé, o que faz? Vai ao médico, engessa, ganha um atestado e, após 15 dias de repouso, volta lindamente à sua vida caminhando sobre aquele pé, agora curado. Permitir que esse período de recuperação ocorra no corpo físico parece natural e admissível, afinal, ver o trauma e sentir a dor torna muito mais fácil aceitar a necessidade dessa pausa. Entretanto, quando o trauma ocorre de forma invisível, no nosso corpo emocional, será que permitimos que essa recuperação ocorra?

Acredito que todos já passaram na vida (ou se não passaram, passarão, não se desespere) por um momento em que, mesmo sem qualquer pessoa tocar a outra, ocorre uma quebra de relação, ou de vontade, ou de desejo, ou ocorre a frustração de uma expectativa muito alta. E, nesse processo, acontece algo tão traumático como o de quebrar o pé: Existe dor, sofrimento, desespero e a necessidade de ir ao hospital "enfaixar" ou "engessar" a parte que se quebrou. Existe também a necessidade de se dar tempo para o corpo regenerar, de maneira que a parte rompida recuperar sua utilização. O que curiosamente não ocorre. Em nossa sociedade, infelizmente, aprendemos tanto a lidar com aquilo que vemos, que esquecemos que o que não vemos é, em geral, mais importante e até mais "palpável".

Perceba, quando passamos pela morte de algum ente querido, existe um trauma claro, quase como uma fratura exposta. A situação da morte nos força a lidar com o fim de uma coisa sem nunca ter-nos sido ensinado abdicar dela. Isso causa muita dor e sofrimento. Com o tempo, o natural é que aprendamos a lidar com aquela perda, mas não costumamos nos dar esse direito. Geralmente, sofremos durante certo tempo, mas sempre estamos nos cobrando estar bem logo após o que consideramos ser um tempo razoável para a cura. E ainda queremos que não haja mais nenhum reflexo ou ligação com aquela situação da qual nos trouxe o trauma.

Infelizmente, diferente do nosso corpo físico, nosso corpo emocional não atua baseado na nossa razão. Quando, por exemplo, tememos andar de skate depois de termos caído quebrado o antebraço uma vez, achamos mediamente aceitável. O detalhe, é que quando nosso corpo físico sofre um trauma e há uma recorrência de dores, basta tirarmos um raio-x e verificamos como o corpo está reagindo àquilo que foi escolhido e aplicado como processo de cura. Quando isso ocorre ao nosso trauma emocional, o comportamento é, geralmente, uma raiva, ou um medo, daquela "energia" ou sentimento ainda se manifestarem e com tudo isso, conseguimos perceber que há algo de errado, mas não conseguimos nos entregar para isso. Há uma continua revolta, como se aquele trauma estivesse muito errado em ainda existir.

Acontece que a realidade é outra. Emocionalmente, somos muito sutis e praticamente imperceptíveis, afinal, conseguimos esconder (em vários casos) desejos, vontades, até medos. Só que não conseguimos não sofrermos as consequências disso. Somos um subproduto do nosso processo emocional e quanto mais inteligência emocional vamos nos proporcionando, mais capazes somos de sermos conscientes (por que sinceramente ter controle aqui é quase uma utopia).

Assim, quando sofrermos traumas emocionais (podem inclusive ser traumas físicos que desencadeiem um processo emocional), que sejamos capazes de dar ao corpo/coração o tempo da recuperação e de perceber que ele tem o direito de nos trazer saudades, dores, tristezas em momentos totalmente sem esperança. Que sejamos capazes de chorar, de derramar tudo aquilo que nos sobra sobre esse trauma, para que não nos falte, no pós-traumático, acolhimento para nos recuperarmos por completo. Só assim poderemos "correr livres" novamente.

Como há muito tempo aprendido, cada dia é "um dia", cada dia "é um corpo", cada dia "uma mente" e cada dia "um coração". Aprender a respeitar este espaço interno de transformação e aceitação é necessário e dolorido, mas rejeitá-lo é talvez muito mais tortuoso e destrutivo. Acreditando que ninguém quer ser torturado, imagina isso acontecendo, tendo você mesmo como carrasco. Melhor não, né?

Thursday, December 13, 2012

Da raiva à raiva

Num passado próximo, vi um homem, no trânsito, que gritava com tanta raiva que me fez pensar: qual seria o verdadeiro propósito desse sentimento?

Há dias tenho conversado com amigos sobre a questão da raiva, esse monstro que a todos nos persegue, que nos faz agir impulsivamente. Se colocarmos clareza em nossas mentes, veremos que ela geralmente não produz resultados positivos. Aliás, não só não os produz, como tem o poder de vir contra nós na mesma intensidade.

E aí vale novamente a pergunta: Raiva serve de quê? Raiva não teria nenhum bom sentido de ser?
Perceba, há um lado da raiva que não é totalmente ruim. Se considerarmos a raiva como um impulso que nos move contra o espaço cômodo e apático que nos colocamos, encontramos seu limite saudável. Por exemplo, por raiva de me sentir sempre sem energia, resolvi reorganizar minha vida em algumas linhas de rotina (exercícios, alimentação e coisas similares) para de fato conseguir readequar as coisas e não me perder nesses processos. Logo, pela raiva, houve movimentação e mais fácil adequação para o cenário daquele momento.

E quando a raiva nos faz perder a cabeça?
O fato é que, se a comparamos a uma substância qualquer, saberemos que em excesso ela certamente será prejudicial. Em pequena quantidade, ela provoca movimentação, mudança; em grande, torna-se um poderoso veneno que nos faz perder o controle das coisas ao invés de resolvê-las.

Essa raiva que possui implicações negativas origina-se da nossa incapacidade de manter tudo a nossa volta sob um restrito controle, segundo nossas vontades, desejos e dores (gerando assim um processo de emergência). Só que, no fundo, damos extremo valor a isso tudo, e geralmente essas vontades e dores são menores do que acabamos projetando.
Sobre isso, me lembro de um episódio peculiar.

Outro dia, minha mãe reclamou de falta de dinheiro e de como o descontrole financeiro era um problema que vinha de família: o seu pai teve muitas dívidas, assim como o pai do seu pai. Só que, em sua visão, ela era uma boa administradora e não compreendia como estava a ponto de ter dívidas.

Sua fala vinha, com muita raiva, das origens. Era como se o descontrole financeiro fosse um destino certo, um buraco de onde não pudesse sair por conta de uma corrente que lhe segurava o tornozelo e claramente a todos os que vieram antes dela. Naquele momento conturbado e por conta da empatia que sentia, comecei a ficar tomado pela mesma emoção. Resolvi sair por alguns instantes do ambiente em que ela falava, respirei calmamente e pude observar que, se entrasse naquilo, me colocaria tão vítima quanto ela da situação, e não havia menor necessidade.

Então lhe disse: "De tudo isso que você fala, eu só enxergo que você não reconhece o que construiu". Após alguns segundos, como se ela estivesse assimilando o que acabara de ouvir ela responde. "E o que você enxerga?" "Vejo uma mulher extremamente forte e rica, que ainda não percebeu de fato que construiu um império, especialmente comparado aos próprios pais e que está simplesmente passando por uma fase ruim, mas que logo entrará em equilíbrio". Depois disso, deixamos de nos falar por um tempo e, na manhã seguinte, ela me disse: "Ainda bem que você me falou aquilo ontem. Acho que faltava realmente ver que eu tava colocando mais areia num saco que já estava furado."

Claramente, todos nós temos uma tendência a termos uma atitude imediatista quando estamos com raiva, seja gritar, ficar melancólico, isolar-se (a minha, por exemplo), entre tantas outras. Utilizamos a raiva para reação, não para resolução. Ou seja, perdemos a capacidade de tornar essa energia algo produtivo e ainda podemos criar uma série de riscos e problemas que no fundo poderiam nem existir, não fosse o impulso destrutivo.

Sei que não há uma conclusão clara para a raiva, até por não ter uma direção concreta do que fazer necessariamente com ela, mas sinto que a velha premissa de darmos um segundo para ver se entendemos direito, para olharmos a situação com a imparcialidade que for possível, em vez de agirmos por impulso, ajude mais. Afinal, a raiva é como um bom medicamento se usado na dose certa (e aqui acho que cabe a cada um de nós perceber de fato qual a dose necessária), senão torna-se um poderoso veneno. E acho que ninguém gostaria de beber veneno.

Saturday, December 1, 2012

Expectativas


Me perdoem falar sobre algo tão complexo e tão intimo. Afinal todos nós nos colocamos diariamente a esperar algo e talvez, por termos a crença de que a "esperança é a ultima que morre", a gente tenha aprendido a colocar isso em primeiro plano. Primeiro plano porque, mesmo na possibilidade da negativa e com a probabilidade de outras coisas rolarem, estamos com isso na nossa janelinha do próximo passo, nem que seja em um modelo de espera. Em primeiro plano, apesar de saber da dificuldade de, às vezes, colocarmos isso em um processo de realidade.

A questão é: é possível não estudar para aquele exame e não ter a expectativa de ter boa nota? É possível se colocar a atravessar uma rua sem de fato querer chegar ao outro lado? É possível se apaixonar, tratar bem a pessoa, e não esperar que ela retribua o carinho? É possível tomar qualquer tipo de ação sem que se deseje que ela, de fato, tenha o fim que imaginamos? Somos capazes de agir, conscientes do que fazemos, sem esperarmos algo de necessário quanto a essas ações?

Possivelmente não. Seria até ilógico tomarmos ações e não termos expectativas quanto ao resultado. No entanto, expectativa pode ter uma conotação negativa, na medida em que mistura esperar com uma cobrança, como explicaremos adiante. Em contrapartida, existe a esperança. Ela se assemelha à expectativa, mas traremos para esse texto um significado distinto daquele do dicionário que nos parece ser mais adequado.

No nosso ponto de vista, “esperança” teria um significado emocional, ela seria um sentimento derivado de nossa capacidade de esperar por algo com paciência. E paciência aqui não tem a ver com receber o que intimamente desejamos por mais que demore, mas estar aberto ao que quer que seja entregue por esse algo. Paciência teria a ver com entender que nem tudo está sob nosso controle, que nem tudo o que vem diferente do que desejamos, no final, é fracasso.

Me recordo do dia em que meu vizinho, uma criança de apenas 4 anos, morreu de câncer. Sua mãe, conhecida devota da igreja que frequentava, tentava acalmar os outros familiares, com a resiliência típica daqueles que sabem quem nem tudo está sob seu controle e que, por isso, lidam melhor com as frustrações. Nesse ponto, boa parte das pessoas de grande fé religiosa nos ensinam grande lição, porque têm muito claro que sua vontade nem sempre é a melhor, ou a que trará melhores frutos. Eles têm esperança, mas criam poucas expectativas por acreditarem que as coisas são regidas por uma força maior que sempre escolhe o que é melhor para elas.

De fato, somos seres com enorme capacidade de nos adaptarmos a qualquer que seja o final da história, uns com mais ou menos dificuldade. Só que também estamos extremamente apegados ao julgamento do que é bom ou ruim para nós mesmos. Acabamos nos cobrando demais. Acabamos criando as expectativas.

Como dissemos antes, a expectativa vem impregnada do significado de cobrança. E a cobrança vem da exigência de reciprocidade: nós damos, mas sentimos que devemos ter algo em troca. E é aqui que mora nosso problema. Criamos em vida uma percepção sobre o mundo e estamos tão cercados de cobranças, que acabamos criando as nossas próprias exigências. E por que a cobrança seria o problema da expectativa? Diferente da pureza da esperança, a expectativa cria uma dinâmica de dureza. Ela cobra algo, em algum lugar, em algum tamanho específico. Ela tende a ser frustrante justamente porque cobrar não quer dizer obter qualquer resultado.

Assim, não há nada que evite que desejemos a aprovação naquele concurso, ou chegar são e salvo do outro lado da rua, ou receber um “eu também te amo”. O que temos que aprender para evitar as tão faladas frustrações é que não podemos controlar os resultados simplesmente porque realizamos algo que, em nossas mentes, tem um único final possível. Aprender a enxergar que nada realmente pode ser controlado abre o precedente de algumas coisas e de várias verdades, que talvez, por dureza ou não ensinamento durante a vida, não fomos capazes de aceitar. E quando falamos isso, estamos nos referindo à nossa capacidade de acolher sem esperar necessariamente daqueles que foram acolhidos. De entregar-se sem necessariamente esperar o retorno disso. Mas jamais deixar de nos permear. É algo entre a mistura poética de dar sem cobrar, de ser aceitando-se e não permitindo invasões, mas sim, relações (até por sabermos que ninguém aqui precisa ser santo, mas que temos que dar ao mundo o nosso contínuo melhor). De perceber aonde nossas expectativas ou nossas esperanças nos levam. De saber associar-se e assim tentar se purificar com tudo isso aprendendo, de verdade, que todo final possível vai ser bem vindo, bem recebido e melhor aceito.

(Esse texto foi escrito em conjunto com uma inteligentíssima amiga, a querida Mariana Mateus. Obrigado Mari pela ajuda.)

Monday, November 26, 2012

Nu


Durante muito tempo eu fui extremamente controlador. Acho engraçado o fato das pessoas serem assim, mas acho mais intrigante o fato de muitos de nós sermos assim. Essa crença de poder "controlar" algo é realmente bem tola. Afinal, no fundo a gente mal se controla. Outra coisa é que durante muito tempo eu era uma pessoa totalmente irritada e vitima do mundo. É até divertido lembrar-me de coisas que fazia no passado, totalmente irritado porque o mundo não era legal comigo, por eu sempre estar tão pronto para fazer as coisas e sempre ganhar um banho de água gelada. Perceber que era totalmente antissocial ao ponto de não conseguir falar nada e com o tempo me tornar uma das pessoas que mais fala (que eu conheço), mas sem deixar de respeitar o espaço de fala alheio, foi importante para mim. Ver essa carapuça constante de tentar esconder os erros, ver o quão difícil foi para mim assumir defeitos, o quão complicado era ver que eu me sentia um monstro, que as brincadeiras dos amigos me incomodavam por eu levar a vida muito a serio e procurava aprovação sob qualquer efeito. Que eu levei tempo para aprender a entender ironia e ate hoje falho miseravelmente várias vezes. Que tive muito medo de poder amar, pois sempre tive medo de abandono, afinal, se nem meu pai foi capaz, por que alguém deveria ser? Me achar a pessoa mais insistentemente boazinha e perceber que bonzinhos sofrem demais por simplesmente não colocarem coisas na mesa. Ver que, por anos, eu tinha como verdades mentiras e que sempre tinha uma arrogância medíocre, que tentava esconder uma fraqueza sempre que necessário. Que eu devo ter sido uma criança extremamente boa e inocente e que perdi isso do jeito mais raivoso possível. Que sempre fui muito observador que sempre me senti mal com isso até um dia perceber que não tinha que me envergonhar. Que tentei por anos ser machinho, falhei e que percebi que isso fazia melhor e não pior de quem me tornei. Que já fui tão ácido em uma piada e por raiva, humilhei. Que levei anos me perdoando para perceber que para a pessoa não passou de uma piada rápida e depois fiquei remoendo a minha incapacidade de perdoar a mim e assim ver um ciclo..
Que tenho esperanças pelo pior de mim, por isso insisto em me colocar o melhor para o mundo. Que já fui negligente em cuidar por arrogância, que fui egoísta em prover por ganância e que fui medroso em compartilhar. Que deveria ter assumido alguns erros de forma mais simples, que complexei tanto que simplesmente perdi. Que fui derrotado constantemente, que fui injusto e que fico muito confuso com quando as pessoas estão sendo perdidas, pois não sei se ajudo, se cuido, se me importo...
Que sei que as pessoas veem muitas coisas boas em mim... Mas que me sinto um pacote de desgosto. Se seria capaz de assumir que tenho medo de pessoas, sendo apaixonado e fascinado por elas. Que gostaria de poder me entregar pro mundo, sendo totalmente presente, em cuidar e acarinhar quem sempre esteve de fato na merda, mas que vejo isso como uma fuga simplória para evitar problemas pessoais e que sei que isso não ajudaria os outros. Que tenho a pala mais consciente da autoconsciência, que não tive curiosidades que parecem bem claras, como beber e ficar de porre, mas me sinto muito realizado quando meus amigos ou companhia se realizam nisso. Que sei que no fundo todo movimento parece egoísta, mas eu queria poder me sentir mais altruísta. Que sei o quanto dói escrever e reler isso constantemente, mas que não consigo parar. Que, às vezes, precisamos chorar. Que tudo isso é roupa e que parece necessário nesse momento se despir. Que nunca me achei bonitão, levei um tempo ate reconhecer beleza em mim e ainda assim, por vezes, peco miseravelmente. Que sempre me senti um péssimo companheiro, que talvez as minhas "ex" sintam alivio em uma escala incapaz de descrição. Que me sinto compulsivo em comer doces e faço isso para compensar em mim uma atitude de fato carinhosa. Que sinto dor quando vejo injustiça, que sei quando posso ajudar, que sei quando pedir ajuda aos outros, mas já pedi para morrer e quase fui premiado. Que talvez tudo seja tolice, mas que ser humano é algo que todos nós desaprendemos, que nos cobrimos de tanta coisa para escondermos o que de fato somos, que simplesmente desaprendemos a ficarmos nu.