Wednesday, July 3, 2013

Quereres

Quando mais novo, ouvia uma repetida frase da minha mãe e da minha avó que era "meu filho, a gente quer quem quer a gente..." E por anos, essa frase me perseguiu.

Perseguição essa que se dava claramente pelo entendimento que se tem dessa frase, contra o comportamento expressado que muitos de nós vivemos.

Entenda, essa frase voltou à minha mente em uma recente discussão sobre "conquistas". Alegavam para mim, que quando queremos algo "difícil" temos que ser insistentes, para haver essa conquista.

Discordei o quanto pude e ainda discordo. Para mim, as coisas precisam ter um certo fluxo, como quando você começa um estudo e desse estudo milhões de ideias brotam e você tem memórias variadas de coisas associadas àquilo e assim por diante. Ou como quando você começa um projeto, que mesmo atrasado, parece que tudo flui tão bem, tão conexo, que não tem "problemas" enormes. Mas na verdade, lá no fundo, tem problemas, mas eles parecem tão fúteis ou solucionáveis, que não se tornam impeditivos. Parece que de certa forma aquilo/aquele te escolheu. Ou que de certa forma, houve uma paixão por aquilo e esta tendo correspondência.

Relacionamentos também deveriam ser assim. Mas ainda insistimos em "conquistar" o outro. Compreenda, para mim, a conquista é algo inerente ou facilitado, quando aquilo é também tomado por uma paixão a nós. Que fique claro, não estou tirando o mérito de um super atleta, que se dedica de corpo e alma a uma modalidade esportiva qualquer, até porque, para ele, deve ser a mesma coisa. Há uma paixão por aquele esporte que de alguma forma é correspondida.

Mas, voltando às relações, realmente acredito que elas acontecem. Quando há abertura em cada pessoa, para assumir o impacto emocional que cada um sofre. Também existe o revelar dos sentimentos, e, no final, existe a conquista. Pode haver empecilhos, mas de alguma forma, eles se tornam facilmente contornáveis.

Muitos ainda dizem que a relação tem que começar difícil para cada um valorizar a "conquista" e também para dar valor a quem esta se conquistando. Sejamos práticos aqui, se alguém sofre uma tremenda insistência de outro alguém para estarem juntos, essa pessoa pode simplesmente não perceber o tremendo esforço que há, daquele que clama (afinal pessoas apaixonadas perdem a dinâmica de força feita) e não dar um valor tão assim ou, pior ainda, aceitar entrar nisso pelo cansaço... Ainda acredito que essa relação tenda a uma não "diversão conjunta", talvez tão almejada. Apesar disso, concordo que muitos não dão valor quando as coisas vêm fácil. Mas se não der, não entra no esquema da conquista. A conquista em si tem a valorização daquele que mexe, não pelo tempo que mexe, mas pela forma. E também por isso, não há conquista falsa. Afinal, ela não perdura.

Sim, parece difícil de perceber quando há uma conquista, por ela não poder ser facilmente colocada em uma relação de 4 meses ou algo assim, seja com um estudo, com uma pessoa, por um projeto. Quando há conquista, há tempo, há abertura, há entendimento e há, talvez, o mais difícil, aceitação. E aqui, entra a grande citação da sabedoria de minha avó. A gente realmente só quer, ou só deveria querer, quem (ou aquilo) que nos quer. Tem haver uma reciprocidade. Querer quem não nos quer é igual a nadar contra a correnteza. Pode parecer um grande feito ao final, mas pode ser um afogamento virtuoso. Querer quem quer a gente sem o nosso querer, pode parecer fácil demais, mas se torna maçante e sem tempero. Por isso, aprendamos aceitação, aprendamos reciprocidade. Quem sabe assim, quebraremos esses velhos padrões de que a vida tem que ser "conquistada" e assim a conquistaremos, de fato.

Sunday, June 23, 2013

Perdendo o controle

Ainda temos muitos problemas com apego e relações de continuidade e curiosamente isso se constrói em muito do nossos medos. Aprendemos em vida a dificuldade de conquistar e controlar as coisas, mas deixamos de lado a realidade de que nem tudo precisa ser continuamente conquistado e que experiências de abdicar, perder, deixar e esquecer nos ajudam e muito. Temos uma incrível capacidade de perder o sentido ou de nos tornarmos totalmente fanáticos a alguns pensamentos ou ideias por acreditarmos que precisamos controlar. Infelizmente, vivemos numa certeza tão grande de alguns controles que certamente podemos definir isso como um pseudocontrole. Vivemos na condição de que sempre sabemos o que é melhor para o nosso caminho, da forma como esse caminho deve ser trilhado e como os outros provavelmente agirão, mas esquecemos que muitas das coisas que conseguimos e/ou conquistamos vieram até nós dentro da estrutura do “acaso” e que, na realidade, adicionando mais questionamentos sobre essa condição toda que possuímos, caimos num abismo mais profundo de uma realidade menos distante de nós (menos distante, por estarmos vivenciando ela diariamente, mas que está tão profundamente dentro do nosso condicionamento que está no nosso abismo pessoal).

Ninguém sabe exatamente como viver, porque viver ou quais as formas, “x”, “z” ou “y”. Qual delas seria a mais tranquila, a melhor escolha ou a mais assertiva ao nosso desejo ou quiçá à nossa transformação pessoal. Aprendemos a lidar conosco, mal e porcamente, e com outros ao nosso redor de forma menos acessível ainda, aprendemos a percebermos como sentimentos/impulsos funcionam e rezamos para que não caiamos em armadilhas que anteriormente se tornaram prisões e salas de tortura por uma grande incapacidade nossa relacionada a alguém ou algo e por não compreendermos ou não aceitarmos a condição daquele processo, até aquele momento, que por mais que quiséssemos talvez fosse melhor não ter e ir regulando a nossa dinâmica de existência mediante a tudo isso. Por isso, em várias eventualidades, caímos nos fanatismos, em especial, no autofanatismo.

Quando pensamos nas várias dinâmicas de todos esses questionamentos, realizamos que a nossa capacidade de viver é ir regulando dentro dos muitos erros cometidos e quando isso acontece, percebemos que na vida existimos em erros e não em acertos. E por isso, talvez, tentar procurar uma perfeição é o que nos torne tão sedentos por controle. Tentamos loucamente controlar tudo e todos e no final de toda essa vivência, percebemos que não controlamos nada. Frustrante talvez seja uma palavra pequena para o que de fato isso é passado. Não temos controle sobre nossas compreensões nem sobre nossas interpretações. 

Muitas vezes, nossos sentimentos nos traem, nossos medos nos dominam e nossas teimosias nos jogam de volta para o mar de incertezas que um dia passamos e juramos a nós mesmos não retornar. Repetimos padrões e erros que prometemos vezes e vezes não repetir e apresentamos àqueles mais íntimos esses erros, na medida em que eles possam talvez aprender de forma menos dolorida. 

O problema é que apesar de vivermos num mundo de padrões, ainda existem casos de probabilidade onde um padrão se torna o novo e se desintegra dentro do modelo. Esse por sua vez é extremamente necessário para renovação ou quem sabe para o novo. Por isso, que quando familiares ou amigXs, conversam e apresentam um problema, que por muitos já foi vivido, existe muito uma tendência de, quando solicitados, ajudarmos com aquilo que podemos, sabemos ou já tenhamos vivido. Nisso geramos um laço do não abdicar e do não querer deixar que eles passem pela dor de um erro ou de uma ilusão por nós vivenciada. Trazemos o afeto de um jeito egoísta por temermos ver aquele que tanto amamos com a dor de algo que poderia, aos nossos olhos, ser evitado ou abandonado, mas esquecemos que quando nós fomos no caminho contrário ao senso comum de familiares, tivemos nossa medida de experiência e até de realidade não digesta. Aprendemos e nos tornamos maduros e experientes com tudo isso.

Por isso, ver pais brigando com seus filhos para que eles façam algo, que sob seu olhar é o certo, tentando ter controle das ações e pensamentos e criando o que deveria ser o modelo de uma boa vida, mesmo que aos olhos do filho o semblante seja o da extrema tristeza pelo que foi feito, orgulho apenas com o construído e pouco aproveitado patrimônio ou do medo ou da incapacidade pelo que aquele sofrido ser passou, nos torne tão distantes de algumas coisas nossas. Como filho, vivenciei com tristeza e raiva em vários momentos e situações, o “controle” que minha mãe queria ter sobre mim e minhas decisões. Sei que se ela classificasse isso como “por amor”, talvez aceitasse a “desculpa”. Entretanto, claramente via como o “medo” do meu sofrimento e em vários momentos do sofrimento dela. Saber que o medo foi dominante e que por vezes caí nesse padrão, até por ser o meu modelo de aprendizado, hoje torna até mais tranquilo quando peço auxilio a ela. 

Por ter, agora, a clareza que somos seres diferentes, aproveito da sua sabedoria para melhor embasar a minha decisão, correndo ou não os riscos, mas sabendo que seja qual for a minha decisão, mesmo que eu ouça “eu avisei você”, fiz por precisar ver/sentir/viver algo que estava, talvez preso, em mim, e que seja qual for o resultado, triste ou feliz, ganharei o suporte necessário para manter, seja qual for, a continuidade.

Monday, May 13, 2013

Relações x Expectativas


Quando tinha 13 anos, possuía alguns amigos bem próximos, daqueles que nunca se separam e que (quase) todo mundo já teve.
Um dia, sem aviso prévio, um deles comentou algo que ficaria marcado para sempre na minha vida:
"Se algum dia perdermos contato e nos encontrarmos depois de alguns anos, vamos nos tratar como desconhecidos?"
Prontamente respondi que não. Afinal, como amigos de tão longa data iriam perder e contato? E mesmo que o fizessem, por qual motivo haviam de se tratar como estranhos?
Concordamos e o assunto foi encerrado.
Alguns anos calejados vieram, a faculdade, o trabalho, as responsabilidades da vida adulta não mais esperavam ser consideradas para trotarem vida adentro e, com isso, experiências de relacionamentos diversos e outros ficando no caminho. Inclusive o desse amigo.

A análise crua de um relacionamento mostra que ele nada mais é do que um alinhamento de expectativas entre duas ou mais pessoas, que caminham juntas para atingir um objetivo comum, por menos claro que este seja.
Alguns sabem identificar este objetivo e tem mais facilidade para lidar com ele ou até moldá-lo. Outros, parecem escravos deste.
No primeiro sinal de desencontro, instaura-se o caos e o relacionamento desmorona para o sentido inverso, como que numa tentativa de compensar o investimento já realizado na outra pessoa.
Esse é um mecanismo de defesa muito comum que busca um fim nobre: nos manter sãos e alinhados à nossas expectativas iniciais, além de tentar justificar as "perdas" decorrentes da especulação mal sucedida.

Estamos acostumados com o controle. Viciados, apoderados dele e por ele. Qualquer mudança brusca que fuja desse padrão nos faz procurar de forma cega e desesperada por algum engaste, de modo a retomar as rédeas imaginárias de nossa vida. Isso, porém causa a sensação inebriante de que temos responsabilidade por todos os fatos acontecidos durante a nossa jornada, sendo eles, na verdade, causas ou consequências de uma infinidade de fatores influentes.
A compreensão dessa realidade nos liberta dos grilhões da culpa (ou ao menos da associação obsessiva à ela) e nos possibilita tratar de forma mais saudável as escolhas e decorrências destas, selecionando o peso que cada um destes fatores terá no julgamento de nossas próximas ações.

Assim sendo, a divergência nas expectativas de qualquer relacionamento pode ser tratada de forma mais saudável, sem a necessidade de demonização dos demais envolvidos ou de si mesmo, compreendendo que todos ali representam o mesmo papel e estão sujeitos à influência de cargas emocionais trazidas de cada experiência pessoal vivida, cabendo a responsabilidade individual de tratá-las de acordo com sua maturidade.

O sucesso está presente em cada investimento, mesmo que comumente disfarçado de falha.
E o amigo? Nos encontramos muitos anos depois e absolutamente nada mudou. (:

Thursday, April 18, 2013

Pena

Pratico yoga há cerca de 5 anos e desde então varias coisas em minha vida mudaram.

Todas essas mudanças aconteceram no meu psicológico. Aprendi a respeitar mais o tempo de algumas coisas, aprendi a julgar menos, observar mais e me qualificar melhor dentro de um espaço pessoal. Aprendi a ver que muitas dificuldades que eu tinha eram apenas padrões em grande estado de repetição e várias outras coisas que talvez não faça muito sentido escrever agora.

Por todos os anos de prática, eu sempre ouvi a seguinte frase "pratique e pare de ter pena de si". Por algum motivo achava essa frase extremamente agressiva e havia um bom incomodo junto de mim por todas as vezes que a ouvi. Curiosamente, ouví-la era como quando sentado torto, alguém vira para e fala "senta direito". Nesse momento existe uma forte tendência a tentar dar o máximo de si para sentar de forma correta, mesmo que não se saiba ao certo fazer isso. Mas a frase dita repercutia em minha mente para procurar o porquê do incomodo que tanto me abalava. Com o tempo, aprendendo a ver que meu limite máximo era meu medo ou minha teimosia, comecei a me dar mais crédito para acessar algumas coisas e uma delas foi uma parte do incomodo mencionado. O incomodo era por eu ter sim, uma boa dose de pena de mim. Afinal, como alguém como eu poderia ser merecedor de algo? Ou pior, por que eu fazia tanta questão de ser merecedor? Por que achava que o que construía não tinha valor? Não tinha nada de físico para comprovar que eu tivesse algum valor dado ao que era considerado assim. E por que queria tanto ter algum valor? Por que insistir em algo que vai ser finito?

Assim, claramente eu tinha dúvidas contínuas, que deixavam claro a minha insegurança e a minha pena de mim mesmo. Entretanto, na hora de praticar, diariamente estava eu sobre o meu tapetinho, procurando respostas que pareciam completamente inacessíveis. Infelizmente, eu acessava as dúvidas, mas não saia muito disso.
Em 2012, depois de enfrentar alguns problemas, que foram tratados de forma prolongada, eu fui acometido por uma pneumonia que me impossibilitou de muitas coisas. Dentre elas, de mim mesmo. Por mais filosófico que isso pareça, aquele órgão que eu tinha trabalhado com tanto fervor e consciência, havia me deixado de lado, ou ao menos, eu me sentia assim. Por mais que procurasse ver os vários ângulos, não concebia uma pessoa que dedicou a vida a se cuidar e que caiu na malha da desgraça. Ler isso te mostra claramente que eu estava sendo vítima de mim. Tendo tanta pena que eu sofria por ser aquele que simplesmente caíra. Como os problemas continuaram com o seu prolongado sistema, perdi muita coisa. Tudo o que tinha de material acumulado tolamente foi perdido. Restaram apenas família, alguns amigos, que sempre me ajudaram muito, e o yoga. Apesar de tudo, a minha identidade, como alguém livre de várias coisas, havia se quebrado e por não me reconhecer com nada, parte se mim desejava uma única coisa, morrer. Por mais complicado que isso fosse e por mais dolorido que parecesse, tudo isso foi o melhor que me aconteceu. Aprendi a rever conceitos que considerava que estavam meio errôneos, como por exemplo, viajar e ir a show com amigos, dentre algumas várias outras coisas. Válido? Mais que isso, transformador. Sentia que desde o momento que havia saído do hospital, eu tinha deixado algo completamente certo de um monte de várias dores e saia alguém que compreendia que as coisas poderiam ser mais plenas.

Tal plenitude me trouxe amigos mais parecidos comigo, revelou máscaras que precisavam beijar o chão (minhas e de outros), revelou que eu precisava usufruir de algumas coisas a muito ensinadas verbalmente, mas que não tinham exemplos claros ou convictos. E que assim eu faria os meus próprios exemplos. Eu me tornaria, no meu máximo, com meus erros, aquilo que eu sentia que deveria me tornar. Mas havia ainda algumas coisas fora de ordem. O yoga ficou intermitente pela recuperação e meu corpo e eu começamos a nos estranhar. Estranhamento esse que me levou a um dia de fúria comigo mesmo. Percebi que ainda estava na minha pena. Claramente, tinha me transformado em muito, mas ainda estava com pena daquele que usou toda a sua capacidade para se isolar, relacionar-se com o mínimo no máximo. E se deixar levar. Se perder e achar que não tinha mais retorno, não que todo o processo fosse esse, mas havia muito disso ali colocado. A grande pergunta foi feita. "Por que ainda sinto pena de mim?" Entendimento não era algo que me faltasse, saber ouvir os outros também não era um problema. Então, onde estava incompleto?


Resolvi, numa segunda, retornar do jeito que fosse para meu corpo. Se ele tinha causado tanta irritação, ele quem me desse a resposta. Voltei a praticar com regularidade o meu yoga, tentando ao menos fazer 10 minutos de uma prática que anteriormente durava 2h30. Seja como for, o retorno parece sempre mais complicado que o primeiro passo. Após uma semana, cheio de ideias e planejamentos, percebi que muitas ideias vinham de uma continua dose de medo de não fazer. De saber que dali nada sairia. Vi amigos próximos realizarem algo que era parte da minha imagem, ainda antiga, mas boa, que precisava ser retornada a mim. Afinal, eu estava num estado deplorável. Resolvi ver fotos antigas de momentos que considerava importantes. Cheguei a perceber que sempre tive o mesmo problema em vida, eu sempre me sentia num estado deplorável.

Completamente consciente a isso, resolvi que faria diferente, para não cair na velha premissa de Einstein, precisava fazer diferente. Mesmo que minha sinusite aparentemente não deixasse. Tentaria algo novo. Assim, sempre que eu olhasse para dentro e sentisse que estava com pena de mim, faria algo para sair do estado que me encontrava.

Desde então, sinto duas coisas. A vida vale sentir pena de si, para permitir ver que você pode aprimorar e melhorar. A pena não é ruim, o que você faz com essa pena é que pode ser completamente autodestrutiva (assim como raiva ou qualquer outro sentimento que paralise os pensamentos em troca de algo que não seja seu).

A segunda coisa é que fica mais fácil agir em prol de si enquanto você sabe o que acontece. Por isso, buscar o conhecimento de cada emoção e de cada momento para entender isso. Lembrar-se que nossos defeitos existem e que por eles temos uma tendência a termos pena ou raiva de nós e saber que no mundo eles serão colocados na boca de outros vezes e vezes, queridos ou não. Isso mostra que o sentimento em si pode habitar a cada passo e talvez, só sejamos capazes de nos ver se aprendermos a respeitar algumas coisas claramente em nós. Assim valha, talvez, saber usar bem a afirmativa "Para de ter pena de si" sabendo quando tem pena de si.

Tuesday, March 12, 2013

Aprovando-se

Das relações mais importantes levadas em vida, a relação com aqueles que nos criam é das mais importantes. Dela temos os principais e primais aprendizados além de alguns vários processos conjuntos (posso citar o "édipo" aqui para facilitar). Entretanto, mesmo com construções assim, ainda nos perdemos nelas. Perceba, crianças não são vasos vazios para enchermos com a nossa pura e simples percepção. Elas já tem um conteúdo em desenvolvimento continuo que se soma a traços de personalidades e aprendizados dos seus tutores e isso é onde em grande parte geram as confusões. Muitas vezes essas "confusões" ganham o título de trauma e assim sendo, uma ferida carregada a vida a fora. Podemos citar a não aceitação da criança, que gera, de forma muito comum, adolescentes que se movimentam contra algo desconsiderando os famosos problemas de conflitos de geração onde todo adolescente é visto como um rebelde sem causa. Se pararmos para observar criteriosamente aquilo que está passando ou parece passar, os jovens ali colocados pedem de forma taxativa aprovação e aceitação daqueles que o tutoraram. Não é muito difícil ver esse padrão, caminhar pela infância, atravessar a adolescência e chegar até nós, já no mundo adulto.

A estrutura da aprovação, é algo que vai do provável ao improvável numa facilidade tão grande quanto a imaginação humana seja capaz, em processos grandiosos ou simples processos diários. Temos pessoas que veem em seus pais, pessoas para quem precisam competir contra ou em relação a algo, num pedido duradouro de aprovação onde ser melhor que os pais o coloca, mesmo que de forma alienada, num lugar onde é capaz de perceber-se como parte da família, ou ainda por cima, que sendo "o vitorioso" este estaria com a sua aprovação enfiada "goela a baixo". Poderíamos ver processos em contínuas relações afetivas, onde a pessoa se relaciona com aquele (arquétipo onde o édipo vai ser maior) de quem sente mais falta ou sente que a aprovação seria uma profunda "salvação". Há também a aprovação dada a distancia, como um pedido desesperado de reestruturar um rumo na vida. Pessoas que saem de casa e se dizem estruturalmente TOTALMENTE distantes e diferentes de seus pais, mas que muitas vezes acessam só um arquétipo oposto não tento tanta diferenciação assim. (Que fique claro, o oposto pode ser realmente muito diferente, mas é uma mesma energia sendo colocada em outra direção de vetor. Um exemplo disso são pais sufocantes que criam uma criança que se torna totalmente desapegada, numa clara visão onde o equilíbrio é a melhor opção, é a mesma "energia" sendo exacerbada a uma direção vetorial oposta). O problema é quando essa aceitação começa a movimentar e reger de formas mais pesadas a vida. Nisso confundimos a aprovação com vários outros sentimentos (necessidade de respeito, de afeto, de compreensão, de concordância ) e não sendo para menos, aprovação dos tutores, por vezes, é algo extremamente complicado de aceitar. Queremos que essa aceitação seja dada de forma escolhida por nós e, às vezes, ela já foi acessada e dada, mas como não veio na embalagem desejada, nos perdemos em confusão pelo todo disso. Um clássico exemplo desse pedido de aprovação é quando levamos nossas(os) namoradas(os) para conhecer nossos pais. Geralmente, sempre tem a pergunta "e aí? o que você achou?"

Quando as escolhas passam por um velho necessário "isso vai ser bom" disfarçado num pedido de qualquer coisa que se aproxime disso, caímos no padrão do vício e isso pode levar a questões tão profundas e doentias quanto qualquer comportamento levado a seus excessos. E para tal saída, resta-nos a percepção de que estamos trilhando algo cíclico que de alguma forma está nos deixando e nos levando sempre na direção da conexão com os que nos criaram.

Assim como em boa parte das relações de construção cíclica, essa relação de pedido de aprovação constante (isso é extremamente profundo e realista, para cada um de nós em cada dinâmica possível a nós mesmos, basta sermos realistas) começa a se perder quando aprendemos a lidar conosco e com a questão de que mesmo com uma clara "reprovação" daquilo que fizemos, o nosso espaço tem que estar em paz. É extremamente complicado viver pedindo aprovação de alguém que não é capaz de aprovar algo que não compreende. Um exemplo disso é a relação de filhos que começam a trabalhar com vínculos de trabalho home-office e ficam em casa trabalhando via internet e para seus pais alegam que aquela "brincadeira" de alguma forma, traz o dinheiro. Pode parecer bobo e até não veiculado, mas já tive amigos próximos que entraram em depressão por situações assim. Afinal, ele sempre teve o pai como modelo mor e esse não compreendia o que ele fazia e assim não o aprovava. A solução veio quando ele viu que não precisava realmente daquela aprovação ou poderia trabalhar com isso. Então, procurou explicar para o pai, sem qualquer sucesso. Decidiu que não iria buscar saber do pai o que ele achava sobre as coisas do trabalho, visto que ele jamais o perguntara sobre o trabalho. Para o meu amigo, a necessidade partia dele. Assim, se ele quebrasse o ciclo, sairia da demanda por aprovação e assim, pararia de cair no ciclo. Ele foi capaz de encarar, algo que poucos percebem, com ou sem a aprovação, que a relação profissional será a mesma, a forma de seu pai tratar-lhe seria igual e por ele perder a necessidade de compartilhar com o pai (sendo este o pedido de aprovação), a relação com seu pai tornou-se mais sadia.

Mesmo com tudo isso, ainda temos uma demanda grande por aprovação, que começa desde cedo, mas que pode ser interrompida à medida que aprendemos a lidar com essa situação. Compreender o porquê de querermos a aprovação, de querermos nos sentir aceitos e de precisarmos disso, faz com que consigamos, ao máximo, agir em prol de nossa própria aceitação de tudo aquilo que é feito por nós, reduzindo os vínculos de parar de pedir aprovações externas e aprender a lidar conosco de maneira mais plena.

Tuesday, March 5, 2013

Viciados

Umas das mais impressionantes coisas nas pessoas, para mim, é que nós somos extremamente capazes de escolher a forma e o que nos aflige, mas insistimos em permanecer cegos a isso.

Existe uma tendência em nós, em sofrer por algo na mesma intensidade que lhes damos importância. Uma forma de observar isso são pessoas que possuem algum vício de "fácil leitura", como por exemplo, fumar. Quando a pessoa está ansiosa, ela tende a fumar mais que o normal, ou quando a associação dela em relação ao fumo está em crise (a pessoa fuma em aspectos sociais e está naquele momento se sentindo socialmente deslocada), existe uma tendência de aumento do vício, pois o "sofrer" em relação a esta associação se colocou em crise. Se ela aprendesse claramente sobre o vício, olhar para ele e entender o porque de fumar, provavelmente isso ficaria mais fácil de desassociar o vício de si (apesar do exemplo, ele tem um porém, substâncias químicas afetam MUITO mais intensamente, por mexerem numa função que vai além do só psicológico, mas ainda passa muito pelo psicológico). Entretanto, quando colocamos de forma mais subjetiva, ou vícios menos aparentes, nos deparamos com uma tendência à vitimização que por muitas vezes passa o patético (que fique claro, mesmo passando o patético, todos, absolutamente todos, tendemos a isso).

Muitos de nós, ainda na infância, aprendemos a receber um certo tipo de estímulo a algumas coisas, seja um estimulo por sermos bons em matemática (e isso pode movimentar muita coisa futura em nós) ou por termos sido legais com aquela tia-velha-beijoqueira-que-insiste-em-arrancar-as-suas-bochechas, que ninguém o fazia e ela, por tal movimento, nos dá aquele mega presente de aniversário que nem nossos pais pensaram em dar. O problema disso é que quando saímos da cúpula familiar, isso começa a afetar em vários estágios e boa parte de nós não percebe que esses estímulos tendem a criam um vício, e que este, assim como vários outros, além de não ser uma opção, não é perceptível como vício.

Afinal de contas, uma pessoa que desde nova decide que precisa casar, não é visto como vício ou fuga (pode existir um vício aqui que seria o vício da fuga de conquista das coisas de forma independente, ainda achamos muito saudável isso e vemos como errado quem sai para morar só e constrói a vida assim). Mas quando analisamos nas bases da minúcia, esse "precisar" é muito diferente de um "querer". Infelizmente isso nunca é muito transparente ou claro de forma que facilite a vida. Desconsiderando funções orgânicas, quando "queremos", estamos em nossa função de escolha e quando "precisamos" estamos na nossa função da "não-escolha" e quando perdemos a nossa capacidade de escolher, estamos no vício. Pode parecer meio cartesiano, ou muito extremista, mas em sua maioria, a análise é essa. Escolhemos, achando que não o estamos fazendo, e precisamos na crença de estarmos no poder de escolher.

Colocando em outras formulações imagine aquelas pessoas que pulam de relacionamento em relacionamento. De certa forma, isso pode ser o que a mantém saudável (o que claramente torna isso um vício, afinal, quando você tira a substancia de um drogado, este perde a sua saúde além do comumente esperado). Entretanto, várias pessoas assim, tendem a viver uma única relação com várias. Mesmo que o ex seja fisicamente diferente do atual ou até psicologicamente não aproximado, a pessoa vive a mesma relação, com mesmos erros e percepções. Ela não se permite, de forma alguma, dar uma "desintoxicada" e uma reavaliada antes de se colocar disponível a outras e novas opções. Por isso, pessoas que tem seus momentos e movimentos ligados a um "espaçamento" afetivo, geralmente, quando aparecem em algumas outras e novas relações, já chegam com mais energia. Todos podem representar psicologicamente, para cada ser, uma forma ou um processo. Entretanto, dentro da percepção dos fatos, existe um vício por pessoas. Que, infelizmente, não é visto como problemático, até que a pessoa se manifeste ou se conecte a algo assim.

Assim aprender a observar aqueles que verdadeiramente sintonizam conosco e talvez aprender a enxergar aquela pessoa pelo que ela é, sabendo a muito quem você é, pode ou deseja ser, movimenta construções e relações aonde mesmo não tendendo ao infinito, tendem ao não-vício, à não-doença e a amadurecimentos, inclusive a quebrar o ciclo da nossa própria dor, reduzindo nossa insegurança e nos dando conforto.

Wednesday, February 27, 2013

Em guerra

Diariamente, ao me levantar, me dou alguns minutos para aproveitar a preguiça. Em dias que não faço isso, me sinto seriamente deslocado da realidade. Parece que minha alma, que vagava existência a fora enquanto eu dormia, ainda não se acoplou ao corpo.

O estranho é que, ao comentar com algumas pessoas, várias ficaram horrorizadas por eu fazer isso. E, pensando mais detalhadamente sobre o assunto, só consigo ver que as pessoas não percebem que estão em guerra.

Ao invés de aprendermos na escola a melhor forma de cada um adquirir conhecimento, somos todos forçados a entrar num sistema único de ensino, onde o que se aprende não é necessariamente medido, mas serve com muita força para nos tornar competitivos. Infantes realmente pequenos já começam a proferir formas e estruturas de competitividade bem pesadas. E para piorar isso, aprendemos a competir com tudo. Competimos para saber quem são mais fortes, mais rápidos, mais bonitos e até mais ricos. Como se de alguma forma, conseguíssemos clareza nas medições. Talvez nessas, tenhamos. Mas à medida que amadurecemos, competimos com a vida, mesmo que sem querer, e entramos aonde poucos realmente se veem. Querermos saber quem é que sofre mais, quem é que ganha mais, quem é que fode mais, quem é que tem mais capacidade de trabalhar sem dormir (competimos com a NOSSA vida, ao reduzirmos drasticamente horas de sono em prol de sermos algo, não necessariamente, melhores) e exemplos jamais faltaram.

O trajeto disso, além da clara autodestruição, é a realidade de ficar numa competição tão grande, que desaprendemos coisas básicas. Como quando as pessoas perdem a clareza e competem com os amigos, quando deveriam ajudá-los, competem com os amores escolhidos e não entendem por que erram tanto e tão constantemente com situações banais. Competem com pai e mãe, pois o erro de percepção desses criam traumas que aquela criança mesmo sendo incapaz de perceber que havia uma boa intenção, não consegue perdoar. Disso, desaprendemos a entender o tempo, por também estarmos sempre competindo com ele. Nossa relação de existência se dá basicamente contra o tempo. Não aprendemos a apreciar as manhãs, comemos rápido, dizemos não ter tempo para trocar afeto, deixamos e abdicamos de pessoas importantes, por criarmos tanta coisa que não cabe naquele tempo. Olhamos para o relógio como se precisássemos correr para algum lugar competir com algo que nos matará mais cedo. Estamos nos tornando pessoas que competem tanto que qualquer carinho ou boa ação gratuita, nos comove além do normal (tanto para o bom como para o mau que há nisso, se é que há algum mau) enquanto elas deveriam ser as atitudes normais. Achamos que vamos ser traídos na competição da vida se pararmos para estender algum desconhecido que cai ou se deixamos a correria de lado para apreciar o encaixe da alma de volta ao corpo durante aquela preguiça ainda na cama ao levantar. Somos monstros devoradores de qualquer capacidade, necessitados por competitividade de um jeito tão bizarro que nos esquecemos de ser os melhores amigos, os melhores amores/amantes e os melhores filhos/parentes. Estamos perdendo a essência do que é ser humano para nos tornarmos máquinas. Estamos tão sem coração que quem chora é fraco, quem fala a sinceridade das emoções é trouxa e quem sente, de todo coração, está perdido.

Talvez precisemos de mais tempo para aprender que mesmo nessa correria merecemos calor e carinho. Merecemos um pouco de paz. Inclusive de nós.